27.4.11

17: Pessoas que marcam...



"Tentei alfabetizar as crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria, não consegui. Mas eu detestaria estar no lugar de quem me venceu."
Darcy Ribeiro



“Pessoas que marcam...”


Eu tinha apenas 6 anos, mas ainda lembro de uma pessoa maravilhosa que marcou de uma maneira muito positiva não apenas a minha infância, mas toda a minha vida. O que me fez lembrar dela neste momento após tantos anos? 



Uma reportagem que li na revista Seleções (Fevereiro/08) sobre a cantora Gloria Estefan, onde ela comenta sobre sua primeira professora. Devido ao início do governo Fidel Castro, sua família cubana teve que se mudar para os Estados Unidos e aos 5 anos a cantora foi matriculada em uma escola norte americana, mas era a única latina e não falava inglês. 



Sua primeira professora (Dorothy Collins), era uma jovem negra e embora não tivesse nenhuma experiência em dar aulas para alunos estrangeiros, aceitou o desafio e com muito amor a ensinou a ler em pouco tempo. Não foi uma tarefa fácil, o melhor aluno da turma insistia em chamá-la de estúpida. Sua família esperava que ele ganhasse o prêmio de melhor aluno no final do ano. 



Os meses se passaram e a professora acabou entregando este prêmio para a Gloria Estefan. Ela se sentiu tão incentivada a aprender, que além de ter sido uma aluna exemplar durante os anos restantes de sua vida escolar, aprendeu também a falar francês fluentemente, além de espanhol. 



Dentre todas as músicas da cantora, particularmente gosto muito da canção Reach (álbum Destiny), que foi tema das olímpiadas de 96 em Atlanta. Você lembra? A música fala de sonhos e metas e dos momentos especiais em nossas vidas e não consigo imaginar nenhum artista passando tanta força e entusiasmo quanto ela.


Oscar, nas olímpiadas de 96

Um GRANDE amigo meu (Rogério) me mostrou um vídeo no youtube que tem esta música como tema. Ele vem acompanhado de lindas imagens (Ayrton Senna, Michael Jordan, cenas do filme “Homens de Honra” e outros), difícil não se emocionar.  Colocarei o link para este vídeo no final desta postagem, pois vale a pena.
Mas você deve estar se perguntando quem é a pessoa que me marcou, continue e eu comentarei sobre ela em seguida.



Há alguns anos assisti a um dos debates dos pré candidatos ao governo americano e por “coincidência”, uma das perguntas era sobre o professor que mais marcou a vida deles e o porquê. Com muita facilidade os candidatos responderam às perguntas e foi então que eu decidi perguntar a mim mesma, quais haviam sido os “teachers” que marcaram a minha vida. 






"Contamos histórias para educar, divertir e tornar mais amplas nossas possibilidades de amar, construir e viver. Isso é próprio do gênero humano."
Tamlyn Tomita




Lembro perfeitamente da minha professora da pré escola, a quem carinhosamente chamávamos de “Tia Meme”. Não sei o seu nome completo, mas sei que era uma mulher maravilhosa, querida, simpática e que lecionou por muitas décadas. Acabou virando uma "lenda" em minha cidade natal (Guarapuava, PR). 



Difícil encontrar alguém que não fosse fã desta pessoa tão especial. Eu nunca a vi apenas como professora, ela era como uma “tia” mesmo, uma amiga. Ela estava sempre sorrindo e era muito carinhosa. Aos 5-6 anos, aprendi a ler brincando, tudo era uma grande festa, eu nem sentia que fazia parte de um colégio de freiras, que na época era bastante rígido. Aliás, acredito que ainda seja.



Mas a “Dorothy Collins” da minha infância tem outro nome e se chama Marília!
Jamais esquecerei o dia em que a conheci. Não sei se ela se recordava como o “destino nos aproximou”, mas esses tempos enviei uma cópia deste texto para ela, então agora ela sabe.




"O analfabeto do século XXI não será aquele que não conseguir ler ou escrever, mas aquele que não puder aprender, desaprender e, no fim, aprender de novo."
Alvin Toffler




Meus pais tinham uma forte amizade que já durava décadas com um casal de amigos e uma das filhas deste casal tinha a mesma idade que eu e era a minha melhor amiga (Francine). 
Éramos vizinhos, nossos pais trabalhavam juntos e nossas mães eram inseparáveis, então eu e a Francine acabamos ficando também. Estávamos sempre juntas, na escola, nas aulas de piano, ballet, natação, no clube, etc. 



Havíamos passado para a primeira série e era o primeiro dia de aula, nossas mães nos deixaram no colégio e foram embora. Lembro que eu me sentia muito importante e ainda trazia comigo aquele sentimento de que era tudo uma grande festa. De repente entrou uma freira muito séria na sala de aula e a maioria dos alunos ficou em silêncio. Lembro perfeitamente da Irmã X (vou omitir o nome dela e você logo entenderá a razão).



Eu e a Francine sentamos na frente mas a aula começou e continuamos conversando, porém a irmã não gostou de nosso comportamento. Ela nos colocou de castigo imediatamente. Tivemos que ficar ajoelhadas em frente ao quadro negro, em cima de uns grãos de milho, obviamente crus, então eram muito duros. Nós  não deveríamos nos mexer, nem falar nada. 



Eu não sei por quanto tempo tivemos que ficar ali de joelhos, mas doeu física e moralmente e quando contamos às nossas mães sobre o comportamento daquela irmã, quase inciamos a "terceira guerra mundial".  Minha mãe sempre foi protetora, mas a tia Janete (mãe da Francine) era ainda mais e ambas estavam bastante indignadas.



Os detalhes do que ocorreu depois são meio vagos em minha memória, lembrando que eu e a Francine tínhamos apenas 6 anos, mas acredito que no dia seguinte, logo cedo, nossas mães foram ao Colégio e ameaçaram processar a escola.



As irmãs não deram muita atenção, apenas falaram que aquela irmã era a melhor professora da 1ª série; mas que se desejássemos poderíamos conhecer uma nova professora carioca que havia se mudado há pouco tempo para Guarapuava e estava começando no colégio. 



Perguntei à minha mãe como foi o primeiro encontro dela com a nova professora e ela comentou que houve uma conversa entre as três, seguida de um encontro para um café e que a impressão não poderia ter sido melhor. Mudamos de professora imediatamente.



Eu sentei na primeira fila, justamente na carteira que ficava “grudada” com a mesa da professora e foi amor à primeira vista da minha parte também, não só da minha mãe.



A professora ou "tia Marília" nunca foi uma professora convencional. Estava muito acima das outras professoras. Tinha um currículo fenomenal, trabalhava com uma filosofia mais moderna de ensino. Acredito que ela utilizava a filosofia Piaget, ou uma semelhante, onde cada aluno é tratado de maneira especial de acordo com seus potenciais e dificuldades. Seu conhecimento e amor pela profissão eram óbvios.


Jean Piaget
Considerado o maior expoente do estudo
do desenvolvimento cognitivo.

No mês de junho deste ano (79), houve atradicional festa junina no Colégio e eu lembro que passamos várias semanas treinando a dança da quadrilha com ela. Ainda lembro do meu vestido, do meu par na quadrilha (André), das brincadeiras, do cachorro-quente, dos doces, do pinhão e do correio elegante. E a mãe da Francine (a tia Janete) recordou com muito carinho a música da nossa quadrilha. Assim que ela comentou eu me transportei novamente para aquele momento tão agradável.


Esta foto foi tirada 2 anos antes no Jardim da Tia Maria Tereza
Meu irmão Marcos, meu irmão Carlos (Tchuca) e eu.

Segue a música que a tia Janete me fez recordar:

Cirandeiro - Edu Lobo

Ó cirandeiro, ó cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol 
A ciranda de estrelas
Caminhando pelo céu
É o luar da lua cheia
É o farol de Santarém
Não é lua nem estrela
É saudade clareando
Nos olhinhos de meu bem 
...



O ano passou rapidinho, mas o laço que se criou jamais se desfez.
Levou muitos anos para eu achar algum professor interessante novamente, mas ninguém a ultrapassou até hoje. Uma linda e forte amizade surgiu entre nossas mães e a "Tia Marília". Até hoje a sua família faz parte das nossas vidas.



Quando liguei pra minha mãe esses dias, para relembrar destes momentos no passado eu comentei com ela que minha filosofia de vida atual “funcionou” mais uma vez. Acredito que nada seja realmente negativo em nossas vidas. Algo aparentemente ruim num determinado momento, geralmente passa a ser uma grande "bênção" no momento seguinte, assim como ocorreu com este fato. Passamos a "construir" um novo sentido se estivermos abertos para isso.



Posteriormente a tia Marília abriu um jardim de infância, o “Bolinha de Neve”. Ela colocava todo seu coração naquela escola. Meus irmãos estudaram lá. Lembro da minha mãe sempre dizendo que a tia Marília nem queria cobrar da nossa família, pode? Dinheiro nunca foi muito importante para ela.



Ainda guardo a lembrança de algumas das professoras do Bolinha de Neve, principalmente da Ana ou Anelita, que é uma linda e querida filha “do coração” da tia Marília com quem converso hoje pelo Orkut/facebook. Com o tempo, passei a estudar de manhã e adorava ir lá no jardim de vez em quando à tarde, "brincar de professora", principalmente quando minha irmã Marcele passou a estudar lá. 



Sou da geração do filme ET e a primeira vez que assisti, foi na casa da Tia Marília. Lembro de tantas coisas boas da casa dela. Sabe aqueles locais que você entra e não quer mais sair?









Tudo o que ela cozinha é delicioso. Ela tem um jeito de Rei Midas e tudo o que ela cozinha "vira ouro". Hoje ela mora em NYC com a filha Erika. 

Eu, minha mãe, tia Marília e a Erika
Restaurante brasileiro em NYC, Dezembro de 2010

Sobremesas que a Tia Marília preparou para nos receber num jantar em NYC
Casa da Erika, dezembro de 2010.


Nem vou dizer como foi o cardápio do jantar. Só sei que minha mãe comenta que nunca comeu algo tão saboroso.  Concordo! Espero poder retribuir em breve...




Voltando ao passado...
Em 1982, no inverno de aproximadamente 0 graus em Guarapuava, meus pais viajaram para Manaus e eu fiquei com meus irmãos, minha vó e a nossa ajudante em casa. Então fui na casa da tia Marília brincar com a Erika e a Francine. Resolvemos ir na Lágoa das Lágrimas. É um gostoso parque e também um ponto turístico. Queríamos andar de patins. Emprestei o patins do André (irmão da Erika). Numa descida enorme eu estava muito acelerada, tinha uma pedrinha no chão, eu freei bruscamente e caí. 


Este é exatamente igual ao par de patins que ganhei de natal em 2007
Só usei 3 vezes. Alguém topa andar comigo numa sessão nostalgia?

Quando levantei, senti algo estranho em meu braço esquerdo, mas não dei muita bola.
A Erika me perguntou:
- Você está machucada? 
Filha de médico é isso mesmo, ela queria me tratar. Eu respondi que meu braço não parecia normal. Por estar muito frio, eu vestia MUITA roupa e não dava pra ver meu braço. Ela me levou na casa dela, me deu uma xícara e comentou: 
- Meu pai me ensinou que se você conseguir segurar esta xícara, seu braço não está quebrado.
Mesmo com muita dor, eu segurei, então eu fiquei aliviada pois aceitei aquele diagnóstico como sendo infalível. 



Uma semana se passou e meus pais retornaram de Manaus. Quando minha mãe entrou no banheiro, eu estava me preparando para um banho, ela olhou no meu braço e gritou:
- O que é isso? Seu braço está roxo e o dobro do tamanho, o que aconteceu?
Ai... ai... ai... Lá fui eu ao hospital, meu braço estava quebrado. Lembro do Dr. Décio, outro médico amigo da família dizer em tom meio bravo:
- Estava cicatrizando incorretamente. Está quebrado, você não percebeu? Não estava sentindo dor? - Respondi:
- Sim, dói muito, mas dá pra aguentar... 



Senti orgulho desta minha “burrice”, pois não me achei frágil. Eu me senti a rainha do mundo, invencível. E adorava que assinassem o meu gesso.
Nos anos seguintes a tia Marília retornou ao Rio de Janeiro e nós passamos diversos verões na casa dela no Rio de Janeiro (capital) e também em Muriqui (litoral do Rio de Janeiro), onde a família dela tinha uma casa deliciosa para passar as férias de verão.


Muriqui, Rio de Janeiro

Era o que considero uma das melhores épocas do Rock nacional, pois foi o início das bandas: Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Ira, Heróis da Resistência, Barão Vermelho, Kid Abelha, Leo Jaime, Titãs, etc...



Uma vez nós saímos com ela e com a Luiza de carro gritando o refrão da música do Paralamas que tocava no rádio, nós nem pensamos naquele trânsito meio caótico do Rio, apenas “cantávamos”:
Por que você não olha pra mim?   oh oh
Me diz o que é que eu tenho de mais   oh oh
Por que você não olha pra mim? 
Por trás destas lentes tem um cara legal...


Estávamos lá no Rio quando ocorreu no primeiro Rock in Rio.
Eu queria ir, mas meus pais não deixaram. O André foi com o Gustavo, a Anelita e outros.
A Erika foi tocar o tema do Rock in Rio no piano, foi o mais próximo que eu cheguei do show.



Lembro da turma toda na praia da Barra e no Barra Shopping, a primeira vez em que patinei no gelo foi lá, o meu irmão Carlos (Tchuca) caiu, bateu a cabeça e saiu chorando.
Lembro dos sucos maravilhosos, sorvetes, dos bolos de cremogema da Tia Marília, do passeio na Quinta da Boa Vista, da "praia da Batatinha" em que o André carregava a minha irmã Marcele nos ombros naquele caminho do trilho do trem...



Eu me recordo do caminhão da coca que despencou no morro de Muriqui e lá fomos nós pegar caixas e mais caixas de refri de graça, de madrugada. Que feio! hahaha
Aquela varanda enorme e deliciosa em Muriqui, as redes que todo mundo queria deitar naqueles verões de quase 40 graus, as deliciosas mangas de Mangaratiba, o pessoal que passava na rua vendendo quebra-queixo e cocadas diversas (leite condensado, abacaxi, ameixa, maracujá, doce de leite...) Que delícia!!!



Depois novamente a família da tia Marília voltou para Guarapuava e adivinha onde decidiram morar? Ao lado da minha casa! Estávamos ainda mais próximas. Na casa dela haviam muitos animais, especialmente cães. Este amor que ela sente pelas pessoas, ela transmitiu aos filhos, então o André “catava” todos os animais abandonados e necessitados que encontrava na rua e levava pra casa. Eu tinha medo dos maiores: Munique e Hanna, mas jamais me morderam.



Desde então estivemos todos juntos em muitos natais, festas de aniversário, formatura, casamentos, etc.
Atualmente ela se aposentou e virou uma “cidadã do mundo”, está meio dividida entre Guarapuava, Rio e Nova Yorque. 
Marília mulher, esposa, mãe, filha, amiga, avó, profissional, eu te admiro muito!
E ao ler esta mensagem saiba que não foi apenas a minha vida que você transformou, provavelmente existem muitas “Marcias” por aí... 



Você que está lendo esta mensagem pense em todas as “Marílias” que já passaram pela sua vida. Dedico a letra desta música a estas pessoas.


Se todos fossem iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar
A sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol
Como a flor, como a luz
Amar sem mentir, nem sofrer
Existiria verdade
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo
Iguais a você...



Outro dia relembrarei mais fatos e pessoas que marcaram a minha vida.
Agora, te dedico esta mensagem:



"Se eu pudesse deixar algum presente a você, 
deixaria aceso o sentimento de amor à vida dos seres humanos.
A consciência de aprender tudo o que nos foi ensinado pelo tempo afora.
Lembraria os erros que foram cometidos, 
como sinais para que não mais se repetissem.
A capacidade de escolher novos rumos.
Deixaria para você, se pudesse, 
o respeito aquilo que é indispensável:
além do pão, o trabalho e a ação.
E, quando tudo mais faltasse, 
para você eu deixaria, se pudesse, um grande segredo:
O de buscar no interior de si mesmo
a resposta para encontrar a saída."
Mahatma Ghandi




Conforme prometi, segue o link do vídeo com a música Reach (Gloria Stefan).
Eu o considero muito inspirador... O início das imagens está ruim, mas logo melhora:

  
Caso não abra clicando no link acima, copie e cole em seu navegador. 
Está com legendas em português, mas se quiser cantar junto, segue a letra em inglês: 

Reach - Gloria Estefan

Some dreams live on in time forever
those dreams, you want with all your heart

and I'll do whatever it takes
follow through with the promise I made
put it all on the line
what I hoped for at last would be mine

{Chorus}
If I could reach, higher
Just for one moment touch the sky
From that one moment in my life
I’m gonna be stronger
Know that I’ve tried my very best
I’d put my spirit to the test
If I could reach

Some days are meant to be remembered, 
those days we rise above the stars

So I’ll go, the distance this time
Seeing more the higher I climb
That the more I believe
All the more that this dream will be mine

If I could reach, higher
Just for one moment touch the sky
From that one moment in my life
I’m gonna be stronger
Know that I’ve tried my very best
I’d put my spirit to the test
If I could reach…
If I could reach, higher…


3 comentários:

  1. Marcia... que delicia lembrar disso tudo... tempo maravilhoso que vivemos juntas..
    Miss you e PARABENS!
    Beijos
    Erika

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  2. Amiga...

    Tempo maravilhoso com certeza!
    É apenas isso que a gente leva dessa vida, né?
    Que possamos ter muito mais momentos como estes.
    Um beijo carinhoso,
    Marcia

    "Sua riqueza encontra-se onde estão seus amigos."
    Plauto.

    ResponderExcluir
  3. Olá Marcia..adorei seu Blog...se puder acesse o meu para críticas.
    Um abraço.
    Eduardo Rodrigues
    http://tomejeitonavida.blogspot.com/

    Parabéns...

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"Toda reforma foi em algum tempo uma simples opinião particular." (Ralph Waldo Emerson)