11.7.11

92: O que fazer com a vulnerabilidade?




"Ser guerreiro não exige perfeição.
Ou vitória. Ou invulnerabilidade.
Um guerreiro é vulnerabilidade absoluta. Essa é a única coragem de verdade...
A vida é uma escolha.
Você pode escolher ser uma vítima ou qualquer outra coisa que deseje.
Um guerreiro age e um tolo reage.
Não há começar e parar. Apenas fazer..."

Filme Poder Além da Vida


Estou em processo de aprender a "me permitir" estar numa situação aparentemente "vulnerável" e não sofrer tanto. Eu costumava evitá-la a todo custo. Além de um dos vídeos publicados aqui ontem sobre o tema (autora Brene Brown), li hoje um blog de uma instrutora americana de ioga chamada Rachel Dougherty e ambas me inspiraram a comentar sobre este tema: vulnerabilidade.

Elas propõem que para levar uma vida feliz e com mais sentido e valor devemos aceitar sair da zona de conforto e abraçar a vulnerabilidade. Dizem que isso deveria ser normal e encarado sem tanto medo e ansiedade. Afinal todo mundo, em determinadas ocasiões estará em diversas situações vulneráveis, principalmente em relação aos relacionamentos. É o modo como a encaramos que reflete o quanto ela vai nos fazer sofrer ou crescer.

Sempre fui muito orgulhosa para me abrir e dizer ao meu amor: preciso de você hoje! A minha vida inteira tentei fugir deste estado de aparente "vulnerabilidade". O que geralmente fiz foi negá-lo, abafá-lo, distraí-lo com outras atividades. Afinal, muitas pessoas pensam que porque costumo ler muito, estudar, fazer cursos, meditar, não sofro ou se sofro, sei resolver tudo sozinha e acabo sendo feliz 100% do tempo.

Muitos creem que tenho todas as repostas, sou auto suficiente, mas não é verdade. Porém, confesso uma coisa: adoro ajudar! Me sinto muito feliz quando as pessoas vem me pedir ajuda ou conselho e é raro passar um dia sem que ao menos uma pessoa me procure esperando uma ajuda, conselho ou um pouco de atenção e carinho. Mas... não gosto nem um pouco de sentir que EU preciso de ajuda! Me sinto fraca, incapaz, perdida, completamente insegura. Ajudar os demais para mim é normal, ser ajudada, não! Faz sentido?!

Geralmente escondi minha vulnerabilidade com uma frase do tipo: está tudo bem! Afinal, meu orgulho falava mais alto. Depois foi meu ego que gritou e me disse que eu não deveria jamais precisar de alguém, que isso seria um sinal de fraqueza e dependência. Qualquer tristeza, negatividade ou dúvida tinha de ser vivenciada na solidão, certamente jamais compartilhada.

Esta era a maneira como eu sempre vivia. Ainda não tinha percebido que o que realmente nos une fortemente à outras pessoas é muitas vezes a nossa dor, a tristeza, a incerteza compartilhada. Até mesmo estranhos acabam "se unindo" quando compartilham momentos ou experiências em que estavam vulneráveis. No estudo da Dra Brene Brown, ela conclui que é impossível criar uma forte conexão (relacionamento) com outro ser humano sem que ambos se coloquem em estados de vulnerabilidade.

Neste curso do final de semana fizemos uma prática relacionada à oratória. Confesso que adoro um microfone e falar em público sempre veio naturalmente pra mim, na verdade falo até demais. Para certos alunos porém, foi algo muito desafiador. Alguns quase desmaiaram e comentaram que estava sendo algo realmente muito difícil e que se sentiam desconfortáveis demais. Dava para perceber o "pânico". 

Que bom que mesmo aterrorizados, venceram seus medos. Quando não desistiram e resolveram encarar o desafio, viram que não era algo tão difícil quanto imaginavam. Naquele dia excepcionalmente eu não quis falar muito e meus conhecidos queriam saber a razão. O que estava acontecendo? Quando disse que estava um pouco triste, foi como uma revelação pra mim e para eles. Por que? 

Falei a verdade. Fui autêntica. Permiti demonstrar a minha vulnerabilidade. Na semana passada meu amor me presenteou com um livro sobre um tema relacionado. A autora comentava o quanto devemos ser verdadeiros, evitar mentiras e sempre demonstrar exatamente o que estamos pensando e sentindo.

Em um aspecto da minha vida, me sinto muito privilegiada. Meu amor se abre muito comigo, sobre praticamente tudo. Eu também me abro com ele. Acho que acabamos criando um vínculo muito forte e significativo. Confesso que não é fácil para mim expor meus medos, meus "traumas", minhas inseguranças.

Existem atualmente coisas importante sobre mim que só ele sabe, nem mesmo a minha mãe desconfia e isso por um lado é bom e por outro, causa um certo desconforto. Uma aparente vulnerabilidade. Despi meu espírito, ele conhece a minha alma e eu a dele. Mas talvez seja justamente isso que tanto nos una.

Será que consigo me expor mais, demonstrar mais meus medos, traumas, necessidades, minhas dúvidas e carências com outras pessoas também? Acho que sim, afinal, não é exatamente isso que estou fazendo agora aqui neste espaço?

Na sexta fui comprar um produto numa loja de eletrônicos e fiquei quase 3 horas conversando com o gerente e a caixa. Não lembro como o papo começou, mas no meio da conversa ele me disse que seu primo havia visto o diabo e que acreditava que era real. Agora ele, o gerente queria saber se na minha opinião o demônio era real, pode?!

Usei de todo o meu conhecimento, fiz uma volta enorme, falei sobre tantas coisas... Ele não queria mais que eu fosse embora, queria saber mais sobre este Deus belo, que é amor, que não julga, que é bondoso e não nos manda castigos e jamais permitiria a criação de um ser "negativo" para rivalizar com Ele. Falei apenas o que acredito, mas ele parecia estar devorando cada palavra com uma fome que vinha do mais profundo da sua alma. 

Senti que o gerente se pôs num estado total de "vulnerabilidade", perguntou sobre pecado, amor, trabalho, assassinato, estupro, corrupção, sobre o relacionamento com sua noiva e outras coisas. Parecia que eu era uma espécie de "terapeuta espiritual". Aquele homem que antes parecia tão forte, sério, líder, negociador, lógico estava completamente carente de uma palavra bela e positiva sobre a vida.

Fiz o meu máximo. Só que eu também estava carente. Cheguei em casa e em seguida fui à missa de 1 ano de falecimento do meu pai e chorei tanto que quase alaguei toda a catedral. Não sei o que as pessoas ao redor pensaram, mas eu me permiti chorar, por pra fora, desabafar... Isso é muito bom!

Hoje, depois do almoço retornei à loja do gerente para devolver um telefone que a minha mãe havia comprado e que não estava funcionando bem, ele me viu e disse: - Depois que você saiu daqui na sexta e no sábado tive os dois melhores dias aqui na loja, muito obrigado, sua energia é muito contagiante e positiva. 

Fiquei feliz. Acho que às vezes sou um pouco "carente de elogios". Mudando de assunto, achei que fui muito dura com meu amor em nossa última conversa e imaginei que ele estava muito bravo ou chateado comigo. Fiquei ensaiando uma desculpa por algumas horas e afinal criei coragem e pensei: sei que vou me colocar numa situação vulnerável, mas vou dar o primeiro passo e pedir desculpa. Talvez ele não a aceite, mas vou correr o risco.

Escrevi e nada de resposta. Naquele momento me senti mais vulnerável ainda. Mas o amor faz isso mesmo com a gente, não é?! Nenhuma garantia. Tem horas que o amor incondicional parece uma teoria tão impossível. Sofri por alguns minutos e decidi soltar para o universo. Li uma oração e depois liguei a TV. Desapeguei... Então ele me respondeu exatamente assim: Amor, eu estava ocupado, estava numa reunião na outra sala, não vi quando você escreveu. Você está me pedindo desculpas em relação a que?!

Nós mulheres e nossa sensibilidade exagerada, hein?! Eu novamente nesta mesma lição? Já não me graduei nesta matéria? Inclusive já comentei sobre este assunto aqui no blog. Por que somos tão sensíveis? Sim, nosso cérebro é diferente e isso explica em partes - Livro: Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor?

Eu e ele conversamos sobre várias coisas. Estava tudo bem, mesmo e eu nem sabia. Depois pensei que realmente era uma bobagem. Mas vou dar um desconto para mim, afinal geralmente estou bem, são raras as vezes em que não estou, então preciso ter mais paciência comigo, ele tem. Ninguém está bem 100% do tempo, não é?! 

Que bom que me permiti "estar vulnerável" e dar o primeiro passo e pedir desculpas, pois naquele instante agi e pus um fim nas minhas "neuroses" de que havíamos brigado e estávamos temporariamente "de mal". Nestas horas é muito bom anular o ego e dar o primeiro passo. O orgulho deve ser evitado, pois não acrescenta nada de positivo.

Muitas vezes guardamos uma pequena dor, um trauma, uma insegurança ou um grande sofrimento. Achamos que se os confrontarmos ou trazermos à tona eles nos consumirão. É por isso que os negamos tanto. Tentamos guardá-los lá no fundo da nossa mente achando que estarão melhores lá, mas é exatamente o contrário que mais nos beneficiaria neste caso.

Cremos que se realmente encararmos aquele fato ou sentimento, se chorarmos, ficarmos tristes ou carentes ela (a vulnerabilidade) poderia se apossar de nós e nos destruir. Mas o que ocorre é que quando encaramos a dor, ela acaba saindo de nós. Há uma espécie de catarse. Como os budistas acreditam: sofrimento é ilusão e ela se afasta quando a trazemos para a luz. 

Aprendi que o pensamento da consequência de me por num estado de vulnerabilidade é sempre muito pior do que realmente vivê-la, encará-la. Esta é uma descoberta incrível e faz você perceber que as coisas podem ser mais fáceis do que imaginamos. Sempre estaremos em algumas posições vulneráveis, mas podemos escolher como reagimos à elas.

Seja uma pessoa de coragem. Comece agora! Decida que a vulnerabilidade não fará com que você se feche para as oportunidades. Perceba quando você quer fugir e se esconder apenas por medo do desconhecido. Observe quando você quer abafar suas emoções com comida, álcool, compras, sexo. Nesses momentos desacelere, respire fundo e perceba que as emoções passam quando você realmente as traz à tona e permite senti-las, encará-las, analisá-las. 

Se o medo ou a insegurança paralisar você, pergunte-se: "Qual a pior coisa que poderia me acontecer? E a melhor?
Observe. Analise. Encontre alguém que confia e abra seu coração, permita que o outro penetre em seu mundo interior. Sinta o que você está sentindo, compartilhe o mais profundo do seu ser com pessoas que valham a pena. 

Não há nenhum lugar para correr ou se esconder. Então, vamos por tudo para fora. Abençoe tanto seu riso como as suas lágrimas. Partilhe a sua bela "humanidade". Ser vulnerável é ser verdadeiro e autêntico, e não há nada que mostre a verdadeira força do ser humano mais do que isso. As pessoas mais grandiosas deste planeta sempre se colocaram em estados vulneráveis e é por isso que deixaram a sua marca.

Vulnerabilidade não é sua inimiga. Ela é a sua verdadeira força para sair da zona de conforto e criar relacionamentos significativos e muitas realizações em todas as áreas. Aceite a sua e sua vida dará um salto em relação à uma vida cada vez melhor...




"O sinal intelectual exterior da vaidade é a tendência à zombaria e ao rebaixamento dos outros. Só pode zombar e deleitar-se na confusão dos outros quem, instintivamente, se sente não vulnerável a semelhante zombaria e rebaixamento."
Fernando Pessoa



2 comentários:

  1. Márcia, adorei esse teu artigo, está de parabéns mesmo, te entendo pois também muitas vezes tento esconder de mim mesmo e dos outro meus momentos negativos e tristes, mas fui aprendendo que a evolução é um processo de retroalimentação, sem ajuda dos outros é muito mais sofrida, até mesmo terapeutas precisam de terapeutas hehehe, abraço fraternal amiga, paz e luz pra ti!

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  2. Márcia que texto verdadeiro,tb sou assim,e o mais impressionante é que algumas pessoas chegam a me perguntar: Vc não tem um dia ruim,triste...vc está sempre de alto astral, felizede bem com a vida. Mas é que eu procuro deletar essas dias,quando não estou bem,prefiro dar uma outra ordem para mim para que eu fique bem,não permitindo assim ficar com os sentimentos que acho que só vão atrapalhar meu dia.
    Enfim,sou assim.

    Obrigada.

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"Toda reforma foi em algum tempo uma simples opinião particular." (Ralph Waldo Emerson)