24.9.11

162: Livro: "A menina que roubava livros"



"A literatura é a expressão da sociedade, assim como a palavra é a expressão do homem. "
(Louis Gabriel Ambroise de Bonald)
Olá
Agora já passa das 2 da manhã, estou comendo uva Itália e começando esta publicação. 
Ontem publiquei algo leve e na minha opinião também divertido, porém hoje o tema é sério!
Sempre acreditei no poder das palavras, pois cada uma tem uma vibração e é indiretamente sobre isso que gostaria de comentar hoje. 
Mas antes gostaria de dizer que estou mais uma vez levemente orgulhosa de um feito meu. Isso não ocorre com frequência, pois sou muito crítica comigo. No sábado passado emprestei o livro "A menina que roubava livros", prometi que o terminaria em uma semana e assim o fiz. Todas as 499 páginas foram devoradas, algumas mais de uma vez para que eu pudesse refletir sobre o tema. Fiquei muito dividida em relação a este best seller do autor Markus Zusak, de 2007.




Já havia lido comentários sobre ele, mas nada como ter a própria impressão, não é mesmo? No começo relutei, não gosto de histórias tristes, já sofri com "O caçador de pipas" e não queria chorar de novo, mas nada é por acaso, o livro "surgiu" em minha vida e não tive como recusá-lo; afinal adoro livros. Além do mais, se estivermos dispostos, a gente sempre acaba tirando algo de bom, não é? Porém, algo que precisamos levar em consideração é que o conteúdo passará a fazer parte da nossa história, como se deixasse uma presença sutil, mas com certeza permanente em nossa mente consciente e subconsciente. Por esta razão sempre seleciono muito os conteúdos que decido apreender e frequentemente evito temas que envolvam guerras.


É realmente uma obra fantástica, mas uma das minhas características mais fortes é a empatia. Este "dom" implica, por exemplo, sentir a dor ou o prazer do outro como ele o sente e perceber suas causas como ele a percebe, porém sem perder nunca de vista que se trata da dor ou do prazer do outro. Mas por que sofri ao ler esta história? Porque sei que muitas histórias como esta realmente aconteceram. Isso é muito penoso de concluir. Realmente senti a dor de cada personagem como se fosse minha. Fantástico trabalho do autor ao descrever cada detalhe, por outro lado, minha frequência vibratória mudou um pouco e evitarei temas assim pelo menos por um tempo. 
Caso não tenha lido esta obra ainda ainda e deseje fazê-lo, não continue! Senão saberá muito da história e poderá perder um pouco a vontade. Mas se mesmo assim desejar continuar, vamos lá... 


Trata-se de uma história baseada na infância de uma garota alemã chamada Liesel, que morava perto de Munique e encontrou a morte três vezes entre 1939 e 1943. A obra descreve a morte do irmão, a separação da sua mãe biológica, o encontro com a sua pobre família adotiva, seus "roubos" de livros, uma grande amizade com um garoto vizinho da mesma idade, o Rudy, as mortes de seus familiares e amigos, o nazismo, enfim tudo o que envolveu a ascensão de Hitler na 2ª guerra mundial e suas consequências. 

Oficial da polícia alemã

Mas o que é extremamente interessante é que desta vez a história não é contada sob o ponto de vista judeu (criticando o povo alemão, todos "hipnotizados" por seu líder) e sim na versão alemã de uma família que excepcionalmente não aderiu ao nazismo; muito pelo contrário, teve até um judeu como melhor amigo e manter esta amizade teve um preço muito alto. Confesso que nas primeiras 30 páginas quis desistir. 
A história toda é contada na visão de um personagem "feminino":
a morte! 


Parece algo macabro, mas até que não é tanto. Traz um certo ar satírico, um pouco mais leve, pois não há melodramas, nem tanto sofrimento ao comentar sobre a mesma. Talvez seja uma sugestão que devêssemos aderir: encará-la como algo simplesmente natural, que faz parte do ciclo normal da vida: nascimento, crescimento, envelhecimento e morte. Embora o envelhecimento as vezes não chegue para algumas pessoas, não é mesmo?
Algo quer amei foram as descrições da morte sobre o céu, mas não lembro em que páginas estavam. Se você leu esta obra, deve saber do que estou falando.


Na minha opinião o autor descreve as paisagens e as pessoas com um jogo de palavras incrível, uma criatividade que confesso, para uma pessoa que gostaria um dia de virar escritora, me deixou levemente com inveja. 
Veja alguns exemplos de trechos do livro, eu asseguro de que você poderia compreender o contexto de cada um e quão bem colocadas as palavras foram, mas para poder perceber isso, você precisaria ter lido o livro. Partes que achei interessantes:





Uma definição não encontrada no dicionário:
Não ir embora: ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças.


Em 1933, noventa por cento dos alemães manifestavam um apoio resoluto a Adolf Hitler. Isso deixa dez por cento que não o manifestavam. (E poucas pessoas fora da Alemanha pensam nessa minoria e no quão difícil foi para elas.)


(Sobre os livros e objetos judeus que foram jogados no meio da praça para a multidão vê-los queimando):
- Hoje é um lindo dia - prosseguiu - Não só é aniversário de nosso líder, como também detivemos nossos inimigos mais uma vez. Impedimos que chegassem a nossas mentes... Pusemos fim à doença que se espalhou pela Alemanha nos últimos vinte anos, ou mais até!
...
As labaredas cor de laranja acenavam para a multidão, à medida que papel e tinta se dissolviam dentro delas. Palavras em chamas eram arrancadas de suas frases.
Do outro lado, para além do calor das formas indistintas, era possível ver as camisas pardas e as suásticas dando as mãos. Não se via gente. Apenas uniformes e símbolos.


Parte três:
Mein Kampf apresentando:
a volta para casa
uma mulher alquebrada
um lutador
um malabarista
os atributos do verão
uma lojista ariana
uma roncadora
dois trapaceiros
e uma vingança em forma de balinhas mistas


Os arquivos da memória:
Ah!, sim, decididamente eu me lembro dele.
O céu estava pesado e fundo feito areia movediça.
Havia um rapaz embrulhado em arame farpado,
como uma gigantesca coroa de espinhos.
Desenredei-o e o levei embora.
Bem acima da terra, caímos juntos de joelhos.
Foi só mais um dia de 1918.


Duas palavras gigantescas:
Sinto muito!


Uma observação pequena porém digna de nota:
Ao longo dos anos, vi inúmeros rapazes que pensam estar correndo para outros rapazes (no campo de batalha).
Não estão.
Eles correm para mim. (a morte)


O processo de raciocínio de Hans Hubermann:
(o pai adotivo e amado da garota alemã)
Ele não era muito instruído nem politizado,
porém, que mais não fosse, era um homem
que apreciava a justiça. Um judeu salvara sua
vida, uma vez, e ele não podia esquecer isso.
Não podia filiar-se a um partido que antagonizava
as pessoas daquele jeito. Além disso, tal como
Alex Steiner, alguns de seus fregueses mais fiéis
eram judeus. Como muitos judeus acreditavam,
Hans achava que o ódio não podia durar, e a
decisão de não seguir Hitler foi consciente.
Em muitos níveis foi desastrosa.


As palavras de Max Vanderburg escritas na parede:
(judeu escondido no porão da menina)
Era segunda-feira, e eles andavam na corda bamba em direção ao sol.


Uma verdadezinha:
Eu não carrego gadanha nem foice.
Só uso um manto preto com capuz quando faz frio.
E não tenho aquelas feições de caveira que vocês
parecem gostar de me atribuir à distância.
Quer saber a minha verdadeira aparência?
Eu ajudo. Procure um espelho enquanto eu continuo.


É comum eles virem atrás de mim quando vago pelas ruas das cidades violentadas. Imploram que eu os leve, sem perceber que já estou atarefada demais. "A sua hora chegará", eu os convenço, e procuro não olhar pra trás. Vez por outra gostaria de dizer algo como "Não vê que já estou com as mãos cheias?" mas nunca faço. Reclamo internamente enquanto vou fazendo meu trabalho, e há anos em que as almas e os corpos não se somam, multiplicam-se.


Chamada abreviada de 1942:
1. Os judeus desesperados - seus espíritos no meu colo,
ao nos sentarmos no telhado, junto às chaminés fumegantes.
2. os soldados russos - que só carregam pequenas quantidades
de munição, contando com os tombados para arranjar o resto.
3. os corpos encharcados de um litoral francês
- encalhados nos seixos e na areia.
Eu poderia prosseguir, mas resolvi que, por ora, esses três exemplos bastam. Três exemplos, que mais não seja, deixarão em sua boca o gosto de cinza que definiu minha existência durante aquele ano.
Muitos seres humanos. Muitas cores.


Muitas vezes, tento lembrar-me dos retalhos de beleza que também vi naqueles tempos. Resolvo minha biblioteca de histórias.
Na verdade, estou pegando uma agora.
Creio que você já sabe metade dela, e se vier comigo, eu lhe mostro o restante. Mostro-lhe a segunda metade de uma menina que roubava livros.
Sem saber, ela aguarda inúmeras coisas a que aludi há pouco, mas também espera por você.
Está carregando neve para um porão, imagine só.
Punhados de neve congelada são capazes de fazer qualquer um sorrir, mas não nos podem fazer esquecer.
Lá vem ela.


As saudações natalinas de Max Vandenburg
(lembra dele? O judeu preso no porão):
- Muitas vezes, Liesel, eu gostaria que isso tudo
acabasse, mas aí, de algum modo, você faz uma coisa
como descer ao porão carregando um boneco de neve.



As bombas estavam chegando - e eu também. (a morte)


Significado nº 1 do dicionário Duden:
Zufriedenheit - Felicidade:

Proveniente de feliz - que goza
de prazer e contentamento.
Vocábulos correlatos: júbilo, alegria,
sentir-se afortunado ou próspero.


Significado nº 2 do dicionário Duden:
Verzeihung - Perdão:

Parar de sentir raiva, animosidade ou ressentimento.
Vocábulos correlatos: absolvição, indulto, clemência.


Significado nº 3 do dicionário Duden:
Angst - Medo:

Emoção desagradável, amiúde intensa,
causada pelo pressentimento ou
pelo reconhecimento do perigo.
Vocábulos correlatos: terror, pavor,
pânico, susto, sobressalto.


Escreveu Max: 
As estrelas puseram fogo em meus olhos.


Será que ele está no porão?, pensou com seus botões. Ou estará robando de novo um vislumbre do céu?


Uma ideia bonita:
Uma roubava livros.
O outro, roubava o céu.


Uma notinha triste:
Visitei essa ruinha da cidade com
o homem ainda nos braços de Hans Hubermann.
O céu era de um cinza de cavalo branco.


Era uma vez um homenzinho estranho, que decidiu três detalhes importantes sobre sua vida:
1. Ele repartiria o cabelo do lado contrário ao de todas as outras pessoas.
2. Criaria para si mesmo um bigode pequeno e esquisito.
3. Um dia, ele dominaria o mundo com palavras.


A última carta da menina à mulher do prefeito:
Cara Sra. Hermann,
Como a senhora pode ver, estive novamente em sua biblioteca
e destruí um de seus livros. É que eu estava com tanta raiva
e tanto medo, que quis matar as palavras.
Eu a roubei e agora destruí sua propriedade. Desculpe-me.
Para me castigar, acho que vou parar de vir aqui.
Ou será que isso é mesmo um castigo?
Adoro este lugar e o odeio, porque ele é cheio de palavras.
A senhora tem sido minha amiga, embora eu
a tenha magoado, embora eu tenha sido ignominiosa
(a palavra que consultei no seu dicionário),
e acho que agora vou deixá-la em paz.
Sinto muito por tudo. Obrigada, mais uma vez.
Liesel Meminger



Morte:

Quando finalmente fui "buscá-la"...
Tive vontade de dizer muitas coisas à roubadora de livros , sobre a beleza e a brutalidade. Mas que poderia dizer-lhe sobre essas coisas que ela já não soubesse? Tive vontade de lhe explicar que constantemente subestimo a raça humana - que raras vezes simplesmente a estimo.




Enfim...
A mensagem sobre o poder da palavra é válida, muito bem explorada, mas quando eu disse no início que fiquei dividida, eu me referi ao fato de que quanto mais focamos nossa atenção num tema, mais ele aumenta, então vou focar em mais conteúdos positivos e alegres nos próximos dias! 
Quero plantar uma bela semente para que histórias como esta não se repitam. Todos já conhecemos os horrores da 2ª guerra mundial, precisamos começar a pensar, escrever, ler e comentar sobre o mundo que desejamos para que ele possa se manifestar. 
Um mundo belo, feliz, onde não existam diferenças entre os povos e nem guerras.
Afinal, tudo o que mais pensarmos hoje se manifestará com certeza amanhã como resultado disso.

"A palavra pertence metade a quem a profere e metade a quem a ouve."
(Michel de Montaigne)

...


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"Toda reforma foi em algum tempo uma simples opinião particular." (Ralph Waldo Emerson)