8.12.11

231: Rubem Alves - Eu maior X Escutatória

"A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar."
(Rubem Alves)

Olá!
Hoje foi outro dia de muita paz e alegria que vem da alma.
Decidi "me escutar" mais. 
Digo: prestar atenção na minha voz interior.
Nos meus anseios, medos, saudades, desejos... 
Mas em seguida procurei estar "presente", curtindo meu cotidiano.
Encontrando as belezas ocultas (ou óbvias), mas que nem sempre percebemos.
Talvez consegui temporariamente uma conexão direta entre mente e espírito e isso tornou meu dia mais belo e harmonioso.


Para que isso fosse possível meditei mais de uma vez. Creio que apenas quando silenciamos a mente escutamos a alma, então quero ver se consigo fazer isso mais vezes e cada vez mais profundamente... 
Porém não pense que meditar é fácil para mim. Muitas vezes me percebo como uma pessoa ansiosa, impaciente, dispersa. 
Reconheço que não sou um exemplo de sucesso, mas talvez seja exemplo de quem continua tentando buscar uma vida com mais sentido e valor. 


Mudando parcialmente de assunto, gosto muito do Rubem Alves e por esta razão, dedicarei esta publicação à ele. Porém, minha ênfase é: aprenda a escutar os demais mas acima de tudo, aprenda a escutar a sua voz interior. Lá vai...



ESCUTATÓRIA
Rubem Alves



Sempre vejo anunciados cursos de oratória.
Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma".

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:
"Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma".

Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.

(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, [...]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.).

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.

Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado".

Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou".

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.





"O que você disse, mesmo?!"

Silêncio )



"Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses."
(Rubem Alves)


Até amanhã!

...

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"Toda reforma foi em algum tempo uma simples opinião particular." (Ralph Waldo Emerson)