6.5.12

285: O Respeito Pelo Eu Inferior


"Tenho o desejo de realizar uma tarefa importante na vida. Mas meu primeiro dever está em realizar humildes coisas como se fossem grandes e nobres."
Helen Keller


Olá!
Para os seguidores antigos pode dar a impressão de que estou cada vez mais distante deste espaço virtual. Só que as aparências têm a capacidade de enviar sinais muitas vezes distorcidos. Se por um lado tenho escrito menos, por outro, tenho refletido bastante sobre tudo e em diversos aspectos, tenho mudado meu modo de ser e pensar.
Às vezes me pego em transição e nem sempre compreendo o que estou pensando/sentindo. Preciso de mais tempo, pois as ideias ainda não fluem para que possa transcrevê-las.
A fase da obrigação já passou, quero registrar tudo aqui cada vez com mais veracidade e conteúdo.
E isso leva tempo...



Meus planos continuam os mesmos, pois têm como base desde o princípio: levar uma vida mais feliz e com mais sentido e valor e poder compartilhar este processo com pessoas que estão nesta mesma "busca".
Sinto que para isso o principal talvez seja tão óbvio: aprender a se amar de verdade, amor próprio, boa autoestima, aceitação e até mesmo gratidão em relação à tudo, desde a nossa personalidade, o corpo físico, os erros do passado, a educação recebida, o trabalho em que está, a família em que nasceu, o país, do planeta, etc...



Este processo pode levar uma vida inteira. E talvez seja este o sentido da vida, o processo, a jornada, o ato de estar nesta procura.
Fiquei pensando em quantas pessoas neste planeta conseguem se amar de verdade, sem ego. Manifestar naturalmente o amor divino, puro, verdadeiro, com 100% de autoaceitação. Será que existe alguém? 
Quantas pessoas buscam cada vez mais remédios, pílulas mágicas que as façam desaparecer desta realidade? Ou plásticas para "remodelarem" seus corpos acreditando que então serão mais felizes?
Uma das coisas que li hoje e que me chamou a atenção, foi retirada do livro "Mulheres, comida e Deus" e fala em como devemos amar e aceitar nossos corpos físicos (pág. 122):



"Apesar da briga com seu físico, o fato é que você está aqui e que as milhares de pessoas que morreram hoje não estão. Ouvi uma meditação anos atrás em que um professor sugeria que pensássemos no que as pessoas que haviam morrido recentemente dariam para estar no lugar onde estávamos. Estar sentada, em qualquer corpo, em qualquer sala. Ele disse: "Pense no que elas dariam para ter um único momento dentro dessa forma física, desses braços, dessas pernas, desse coração batendo e nenhum outro." Eu deduzi que os mortos a quem ele se referia não se importavam com o tamanho das coxas de ninguém."


E por falar em mais aspectos nossos que devemos amar e aceitar, sugiro que nosso "ego" ou "eu inferior" também seja aceito. Para isso, aqui vai outra leitura que me inspirou:




O Respeito Pelo Eu Inferior 


Um Olhar Mais Profundo 

Para o Caminho da Sabedoria 

Carlos Cardoso Aveline 



Na Índia antiga, o guerreiro

Rajput jurava por sua espada e seu escudo


Não basta adotar ideias corretas.

É preciso observar como nos relacionamos com elas. Uma visão superficial ou mecânica de conceitos filosóficos corretos é mais do que suficiente para provocar desastres ao longo do caminho.

Muitos falam, por exemplo, da necessidade de inegoísmo e auto-esquecimento em teosofia. Estas são duas ideias importantes. Mas elas devem ser administradas com cuidado, porque os seus alicerces são um completo autoconhecimento e um cuidadoso controle de si mesmo.

Em “Cartas dos Mestres de Sabedoria” vemos um Mahatma citar palavras de Alfred Tennyson ao referir-se a três fatores decisivos no esforço teosófico:


“Auto-respeito, autoconhecimento e autocontrole”. [1]


É verdade que o auto-esquecimento é indispensável, quando se decide trilhar o caminho da sabedoria. Ao mesmo tempo, o eu inferior ou alma mortal é um instrumento necessário para a expressão prática daquele nível de consciência em que ocorre o auto-esquecimento.


O verdadeiro auto-respeito inclui uma correta consideração pelo veículo que chamamos de “personalidade”. A inteligência inferior é valiosa. Ela tenta ser útil à nossa consciência mais elevada. Só a ignorância temporariamente presente no eu inferior deve ser combatida, de modo calmo e gradual, até desaparecer.


Será correto rir dos nossos próprios erros? Sim, às vezes, e com moderação. A verdade é que ao longo do caminho os pensamentos e ações da personalidade passam a viver em harmonia crescente com o clima criado pelo fato de que o eu inferior se reconhece como um instrumento consciente da Alma imortal. Nosso eu “inferior” é, portanto, muito mais do que uma “máscara” ou “casca”. É um santuário, e pode ser protegido de influências e pensamentos destrutivos. Helena Blavatsky escreveu:


“Só a sempre desconhecida e incognoscível Karana, a Causa Sem Causa de todas as causas, merece ter um altar e um santuário no solo sagrado e jamais pisado do nosso coração.” [2]



A personalidade “inferior” é um templo habitado por uma inteligência divina. Portanto, o aprendiz deve cuidar construtivamente do clima psicológico vivido pelo seu “eu pessoal”. A qualidade dos seus sentimentos e pensamentos não melhora através de ódio ou desprezo pelo eu inferior. A melhora ocorre através da consideração e do estímulo positivo. Ideias ou ações que não se harmonizem com o papel da personalidade como veículo do eu superior devem ser reconhecidos como expressões de desrespeito pela vida.


O aspecto mais importante do processo de auto-respeito é o sentimento que o aprendiz de teosofia tem pela voz da sua própria consciência, pela sua alma imortal, a essência do seu ser, seu Atma, sua Mônada.


Como toda forma de luz, o respeito brilha em todas as direções. A consideração por si mesmo é a base do sentimento fraterno que o estudante passa a ter por todos os seres. Tanto os aspectos celestiais como as dimensões terrestres da vida merecem um cuidado amistoso, e estes dois níveis do sentimento de respeito são inseparáveis entre si. De certo modo, o ser humano é o antahkarana, a ponte, entre os níveis superiores e inferiores da vida. Um indivíduo é sobretudo o foco central do campo de consciência que anima a sua própria aura.


O que se planta, se colhe. Se a consideração por si mesmo produz um sentimento de respeito por todos, a recíproca é verdadeira. Com o tempo, passam a ser necessárias uma atenção e uma vigilância ampliadas por parte daqueles com quem o estudante de filosofia se relaciona. Em cada circunstância da vida, a interação correta entre a personalidade do estudante e outros indivíduos deve ter como base o princípio do respeito mútuo, não no terreno da mera cortesia social, mas no nível durável da profunda sinceridade.


Quando adotamos esta visão multidimensional do processo de auto-respeito, fica mais fácil perceber que a autodisciplina não é um ato de força unilateral. Ela não resulta de uma imposição de fora para dentro. Ela surge naturalmente da afinidade com a ideia de uma vida correta e altruísta. Assim, a prática equilibrada da autodisciplina expressa uma profunda estima do estudante por sua própria personalidade.


Estes três fatores da vida, mencionados em um velho poema de Tennyson, parecem resumir o caminho da Raja Ioga: auto-respeito, autoconhecimento e autocontrole. No entanto, nenhum progresso real em Raja Ioga é fácil. Há sempre um duro combate a ser enfrentado. A mente é como uma espada, segundo a tradição zen-budista. Na Índia antiga, um guerreiro rajput fazia seus juramentos solenes pela sua espada e seu escudo. [3] E o Dhammapada ensina:


“Do mesmo modo como o produtor de flechas torna sua flecha reta, o sábio torna reto o seu pensamento distorcido.” [4]


A verdade é que assim como um guerreiro eficiente ama sua espada, um arqueiro ama o seu arco, e um barqueiro, o seu barco, a filosofia esotérica ensina que um teosofista aprende a amar, a respeitar, e treinar, o seu próprio eu inferior.


NOTAS:

[1] Carta IV para Laura Holloway, no volume “Cartas dos Mestres de Sabedoria”, compiladas por C. Jinarajadasa, Editora Teosófica, Brasília.

[2] Traduzimos esta frase diretamente da edição original de “The Secret Doctrine”, de Helena P. Blavatsky, Theosophy Co., Los Angeles, volume I, p. 280.

[3] Veja, por exemplo, o livro clássico “Annals & Antiquities of Rajasthan”, de James Tod.

[4] “O Dhammapada”, Capítulo 3, Verso 01. O Dhammapada completo pode ser encontrado em seção temática independente no website www.FilosofiaEsoterica.com.



"As melhores e mais belas coisas do mundo não podem ser vistas nem tocadas, mas o coração as sente." 
Helen Keller


Até breve!

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"Toda reforma foi em algum tempo uma simples opinião particular." (Ralph Waldo Emerson)