"Existe um caminho ideal para cada ser. É único.
Descobri-lo é sua missão.
E como fazer isso?
Escute a sua "alma" e estará ouvindo
o seu coração e razão juntos,
desta forma acertará infalivelmente.
Marcia Karasinski
Olá!
Muitos dias frios e chuvosos consecutivos.
Aproveitei para ficar em casa e pensar na vida.
Tive que refletir muito se sou "ovelha ou leão".
Ainda é cedo para eu expor as razões disso, só sei que alguns acontecimentos me fizeram pensar muito e quase me deixaram de cama.
Fui criada para agradar, para dizer sim para todos, mesmo quando algo me desagradasse e eu achasse que não era o melhor.
Não é fácil ser assertiva de repente, mas como a vida foi projetada para que possamos evoluir, me coloquei em algumas situações em que precisarei exercer isso.
Ou seja, terei que ser mais "leão".
Não quero dizer que terei que ser brava, violenta, selvagem... Apenas que terei que assumir uma atitude de mais segurança e talvez até liderança nos momentos em que sentir que necessito tomar decisões.
Afinal no fundo, quando escutamos a nossa "alma", acabamos seguramente sabendo qual o melhor caminho a seguir.
Espero que este texto abaixo te inspire, como me inspirou... Pois embora muitos achem que a maioria tenha nascido para ser ovelha, creio que no fundo de cada pessoa há um leão adormecido, louco para se libertar e se realizar...
"O
Discipulado de Hari, o Leão"
Marie
Louise Burke
A mãe
ovelha, que havia alimentado Hari e cuidado dele em seus primeiros anos de
vida, esquecera que ele não era seu filho, sendo, na verdade, filho de uma
leoa. Não apenas a mãe, mas todo o rebanho havia esquecido as circunstâncias
extraordinárias do nascimento de Hari, apesar disso ter sido testemunhado por
quase todos.
Na
época do nascimento de Hari, um pânico momentâneo espalhou-se no coração do
rebanho, como era de se esperar. Foi um acontecimento inusitado e alarmante.
Naquele dia particular, os carneiros estavam pastando, balindo e seguindo uns
aos outros, perfeitamente felizes, quando apareceu, às margens da floresta que
fazia limites com a campina, uma leoa castanho-amarelada. Ela parou farejando o
ar, olhando para o rebanho com um sorriso curioso entre os lábios - meio
desesperado, meio esperançoso. A leoa não se sentia bem. O corpo estava inchado
e a respiração ofegante. Não era jovem; não comia há dias; estava prestes a dar
à luz e, além disso, seu coração não estava nada bem. Lenta e dolorosamente se
aproximou do rebanho, sem desviar os olhos dele.
Os
carneiros não se deram conta logo de que estavam sendo atacados. A leoa estava
praticamente em cima deles quando, um após outro, viraram-se para olhar para
ela. Durante vários segundos não houve reação, mas, de repente, começou uma
correria maluca e confusa, com todos balindo ao mesmo tempo. A leoa lambeu os
beiços com impaciência e desdém. Não tinha forças nem vontade de persegui-los
pela campina. “Seus patetas”, rosnou.
Procurou
uma ovelha apetitosa e logo encontrou uma que lhe pareceu boa. A ovelha ficou
imóvel, olhando para a leoa. Acontece que, meia hora atrás, havia nascido seu
filhote. Estava agora tão dividida entre o impulso de sair correndo e o impulso
de proteger o filhinho que nada pôde fazer. Ficou parada, respirando com
dificuldade.
A
leoa aproximou-se agachada e deu um salto no ar jogando o corpo na direção da
ovelha, aparentemente inerte. Então, de repente, o longo movimento em arco foi
interrompido, como se partido em dois, e o enorme corpo amarelo caiu com uma
pancada surda em cima do filhote, errando o alvo. A ovelha fechou os olhos por
uns instantes.
Em
poucos segundos Hari saiu do corpo da leoa, cego, indefeso e tremendo por causa
da queda. A mãe já estava morta e de nada adiantou ele se aconchegar e choramingar,
pois não recebeu nenhum alimento. Desistiu e andou pela grama, movido pelo
estômago, miando e virando a cabeça de um lado para outro. Logo chegou perto da
ovelha, que ainda não se mexera; estava completamente atordoada. Contudo,
destinada a prover comida a Hari de uma forma ou de outra e, em obediência a
uma vontade infinitamente maior que ela, deitou-se ao toque suave e suplicante
e o alimentou.
Quando
o medo passou, o rebanho reuniu-se em torno do estranho grupo: Hari, a mãe
adotiva, a leoa e o carneirinho mortos. E todo o rebanho baliu.
“Que
susto! Pensei que o mundo ia acabar!”
“É
um milagre que ninguém tenha-se ferido.”
“Ainda
estou tremendo. Olhei para cima e vi este monstro amarelo!”
“Tente
esquecer-se disso, querida. De nada adianta ficar pensando nisso”.
Os
carneiros não tiveram dificuldade de seguir este conselho e, depois de
comentarem uns com os outros o que tinha acontecido por mais alguns momentos,
voltaram a pastar e tudo foi rapidamente esquecido. Até mesmo a mãe adotiva de
Hari logo ficou com a impressão de que ela tinha de fato lhe dado à luz. Para
dizer a verdade, ele parecia um pouco baixo, mas era adorável.
À
medida que Hari cresceu, seus companheiros de brincadeiras começaram a
queixar-se dele às suas mães.
“Ele
me bateu”, eles exclamavam.
“Batam
nele também”, as ovelhas baliam.
Mas
este conselho não parecia funcionar e a única alternativa era não incluí-lo nos
jogos, com o que, para dizer a verdade, ele não se importava muito.
Assim,
desde o início, Hari foi solitário. Apesar dos carneiros não perceberem
claramente que ele não era um deles, sentiam que ele era diferente. Eles o
achavam peculiar e, por isso, não gostavam dele.
“Ele
é esquisito”, diziam às suas costas. “Ele me dá uma sensação estranha, uma
espécie de arrepio na espinha. É tão rude!”
Os
carneiros mais espertos chegaram à conclusão de que ele era desajustado e
decidiram ter pena dele.
O
próprio Hari não fazia ideia de que não era um carneiro. Ele nunca se olhara de
forma objetiva. Tudo o que sabia é que não gostava dos outros carneiros e que
eles não gostavam dele. A vida parecia-lhe incômoda e sem sentido. Ele passou a
deitar-se um pouco afastado do grupo e, olhando à distância, perguntava-se:
“O
que significa tudo isso? Pastar, balir e seguir uns aos outros... Por quê? Com
que finalidade?”
Ele
costumava fazer estas perguntas à mãe e ela lhe respondia que se parasse de
andar no mundo da lua algum dia seria um membro útil da comunidade e pai de
muitos cordeirinhos. Ele considerava todas as respostas muito insatisfatórias.
“Mas,
por que eu nasci?” - ele insistia.
“Ora,
é a vontade do céu, Hari”, ela respondia irritada. “Há pastos e mais pastos
para serem podados e você pergunta por que nasceu! Eu, às vezes, não sei qual é
o seu problema.” Mas, no fundo do coração a mãe ovelha amava o estranho filho e
o defendia dos outros. “Ele é diferente”, ela dizia. E ficava muito magoada ao
ver que se olhavam e nada diziam.
“Por
que você não pode ser normal, querido?”
- ela implorava. “Eu sei que você gosta de ficar sozinho, mas isso é tão
esquisito. Os carneiros ficam falando de você.”
Quase
nada do que a mãe de Hari dizia era verdade, mas, apesar disso, ele tinha
grande consideração pelos seus conselhos. Sem dúvida, a felicidade e o sentido
das coisas está em fazer parte da comunidade e ser normal. Portanto, ele fazia
o melhor que podia para se misturar com os demais e não pensar. No início foi
difícil. Ele percebia que quando se aproximava todos ficavam em silêncio:
saíam, um por um, e formavam um círculo separado dele. Isso dava-lhe uma
sensação de fracasso.
“Ninguém
gosta de mim”, disse à mãe.
“Não
seja bobo, querido”, ela respondeu. “Você é igual a qualquer um. Só não lhes dá
chance de gostarem de você. Precisa se misturar mais.”
Todas
estas afirmações eram verdadeiras. Hari podia comer mais grama e balir mais
alto do que ninguém. Ele só não era bom em ir atrás dos outros. O segredo da
felicidade, decidiu, deve estar em segui-los, e isso requer persistência.
Portanto,
determinou-se a andar com os outros, sem importar-se que o tratassem mal.
Forçou-se a juntar-se ao grupo que se reunia pela manhã do lado oeste das
árvores e à tarde a leste. E quando o grupo saía, ele os seguia, balindo
normalmente, como os outros, em volta das ovelhinhas recém-nascidas e na área
da pastagem.
Lentamente
se tornou tão normal e respeitável quanto qualquer carneiro. Quando chegou a
época, filiou-se ao Clube dos Carneiros e passou a tomar parte das discussões
sobre o sabor da grama e o mérito dos jovens cordeirinhos.
Esta
última causava-lhe uma inexplicável repugnância, que considerou anormal e
esforçou-se para superar. Ria tão alto como qualquer cordeiro e contava
histórias muito melhor. E, embora qualquer coisa sobre sexo o desgostasse,
ninguém percebia. Escondia isso até de si próprio, dizendo não ter aparecido
ainda a ovelha certa. Apesar de essa falta de interesse não ser inteiramente
normal num carneiro jovem, era algo bastante aceitável. Nesse meio tempo, Hari
falava grosso e, longe de ser evitado, era procurado.
Para
dizer a verdade, as ovelhas ainda percebiam que ele era fora do comum, mas isso
agora se tornara uma vantagem.
“Ele
é tão engraçado!” - elas diziam.
“Que
personalidade!” - orgulhava-se a mãe.
Mas,
para Hari, havia algo terrivelmente errado. Na verdade, a vida agora era pior
do que antes, quando ele ficava deitado na grama sozinho. À noite não podia
dormir e uma certeza, uma mistura de dor e escuridão, pesava sobre ele. Era a
certeza de que ainda era diferente, de que não tinha encontrado um sentido para
a vida e de que, em parte alguma, no céu ou na terra, havia um lugar para ele.
Era uma solidão sem resposta.
A
mãe de Hari ensinara-lhe a rezar, quando ele era filhote. Depois disso deixou
de falar em religião. Assim, na mente de Hari, Deus estava associado à infância
e ele pensava ser tudo isso uma bobagem. Mais que isso, sua mãe dissera-lhe que
Deus era um Carneiro enorme, com grande capacidade, que podia conduzir o
rebanho a pastagens verdejantes e dar-lhes conforto, desde que fossem bons
membros da comunidade. Mas ninguém jamais tinha visto esse Carneiro, e Ele
parecia muito improvável a Hari. Quanto a pastagens verdejantes e mais
conforto, ele não queria nada disso.
“Não
existe Nada”, disse a si mesmo, deitado, sem sono, à noite. “Nada, nada, nada.”
E esse nada era escuro, um espaço sem fim, dentro e fora. “Eu queria estar
morto. Não queria ter nascido.” Mas esse
desejo parecia sem sentido, pois, se ele estivesse morto, ainda assim haveria o
Nada. “Mas, pelo menos, eu não saberia disso; não me importaria”, pensou. Mas
isso era inconcebível: não saber. Morto ou vivo, ainda haveria algo ou alguém
que saberia sobre o nada. Haveria conhecimento do vazio para todo o sempre.
“Deus.
Deus. Deus”, lamentava-se Hari. Não queria o Deus-Carneiro. Não sabia o que
queria. “Deus. Deus. Deus”, continuava dizendo.
Assim
Hari passava as noites. De dia, tentava manter as aparências, ocultando o
buraco negro dentro de si. Ria, contava piadas e flertava com as ovelhinhas
adolescentes e invariavelmente deixava-as de coração partido. À medida que o
tempo passava, ele se tornou cada vez mais afoito e impetuoso. As ovelhas
começaram a sacudir as cabeças e a cochichar.
“Eu
sempre disse que havia algo estranho nele”, diziam umas às outras.
A
mãe começou a observá-lo com olhos tristonhos. “Você deveria casar-se, Hari”,
balia.
“Deus.
Deus. Deus.” Hari repetia à noite como se chamasse não sabia o quê ou a quem, e
ele nem esperava que alguém respondesse. Era como se o vazio escuro que havia
dentro e fora dele estivesse por si mesmo pedindo para ser preenchido de algum
modo.
E,
assim, os dias e as noites passavam e pareciam intermináveis. Balindo,
pastando, seguindo; seguindo, pastando, balindo; e o indescritível vazio
chamava cegamente: “'Deus. Deus. Deus.”
Então,
numa noite enluarada, Hari ouviu um estalido de galhos na floresta que margeava
a campina. Virou a cabeça na direção do barulho e, de repente, viu um vulto
destacado das sombras escuras, recortado contra a luz da lua. Tinha uma cabeça
imponente, um corpo esbelto, e os olhos, que olhavam para Hari, eram duas luas.
Hari cravou os olhos nele, pois nunca havia visto um ser tão belo, tão sereno,
tão seguro de si. Sua postura era a de alguém que não precisava de nada mais
além de si mesmo e, no entanto, era como se fosse o dono de toda a terra. Um
pensamento rápido surgiu na mente de Hari: “Então há algo mais... algo além do
que conheço...” Era uma esperança. Mas, ao mesmo tempo, pensou: “Deve ser um
leão, o Rei das Feras.” E ao pensar nisso, lembrou-se que os carneiros deviam
temer os leões. E ficou com medo. Levantou-se e preparou-se para correr mas,
nesse instante, o leão desapareceu na floresta, deixando atrás de si um vazio
tão grande que Hari deu um grito de dor. Sentiu um desejo irracional de ser
devorado por um leão. “Melhor ser devorado. Muito melhor ser devorado por uma
criatura assim do que não vê-la jamais. Que tolice ter ficado com medo!”
O
resto da noite e todo o dia seguinte Hari pensou no leão. “Existe aquilo!” -
ficou pensando. “Algo além do que conheço. Algo mais belo do que o
Deus-Carneiro, se é que o Deus-Carneiro existe. Algo Real!” Não mencionou a
experiência ao rebanho. Era algo muito sagrado. Além disso, ele nem percebia
mesmo os carneiros. Só desejava ver o leão outra vez.
Hari
esperou toda a noite seguinte. Mas o leão não veio. A lua e as estrelas sumiram
no céu e a aurora despontou, revelando a campina fútil e sem graça. Tudo era
exatamente como sempre tinha sido, mas agora o pesar e a solidão de Hari eram
maiores do que nunca. O sol levantou-se e ele enfiou a cabeça entre as patas,
que lhe pareciam cascos fendidos, e lamentou-se. “Afinal não passou de um
sonho. Como sou bobo!”
Mas,
subitamente, ouviu um ruído de galhos e lá estava o leão na beira da floresta: não
como Hari o tinha visto antes, não uma forma escura, entre as sombras, mas um
Ser dourado, pulsante. Sua juba espessa e o tufo de pêlos na ponta da cauda
captavam os raios da luz da manhã e cintilavam. Os olhos eram como dois sóis.
Hari arquejou e se levantou. O que tinha visto antes não era nada comparado a
isso. O leão o olhou e em seus olhos de sol havia uma compaixão que parecia
penetrar até o fundo da alma de Hari, uma compaixão que conhecia e compreendia
tudo. E nas profundezas daqueles olhos, Hari sabia, estava a resposta que
buscava. Era Algo brilhante e verdadeiro.
Durante
vários segundos Hari e o leão ficaram olhando um para o outro. Então, o leão
deu um passo para a frente e, de repente, Hari sentiu uma pontada de medo na
boca do estômago. Tentou lembrar-se do quanto havia desejado ser devorado; mas
ver o leão frente a frente era outra coisa. O leão deu mais um passo. Hari
virou-se e correu.
O
sofrimento de Hari depois disso foi indescritível. “Perdi a única coisa que
amei na vida por causa desse medo estúpido e covarde. Bobo! Bobo! Bobo!” Ele
estava convencido de que o leão nunca mais voltaria. E, por várias semanas o
leão não voltou. Hari sabia que estava não apenas condenado, mas muito pior,
auto-condenado à Não- Existência.
Então,
num belo dia o leão reapareceu. Era meio-dia. O rebanho estava, como sempre,
comendo grama e mastigando e não perceberia o intruso se Hari não sentisse sua
presença no momento exato em que saiu da floresta para a campina aberta.
“Leão!”
- gritou, tão grande foi sua alegria e
surpresa.
Para
o rebanho este grito era alarmante. Foi um corre-corre medonho, todos os
carneiros espalharam-se, balindo espavoridos. Mas Hari ficou parado e esperou.
Embora sentisse medo, aprendera que há coisas piores do que ser devorado por um
leão. Ficou ali, tremendo da cabeça aos pés e esperou. O leão ignorou os
carneiros que corriam de um lado para o outro e dirigiu-se diretamente para
onde Hari estava. Parou tão perto dele que Hari podia sentir o cheiro agradável
de sua respiração. Mesmo assim não se mexeu. Fechou os olhos e retesou-se,
esperando a mandíbula negra entrar em sua carne e os dentes brancos o rasgarem.
De
repente, ouviu um rugido suave e baixo, como um trovão distante. “Qual é o
problema?” - perguntou o leão.
Hari
abriu os olhos e viu-se outra vez em frente aqueles olhos compassivos e
penetrantes. Estava claro que não ia pular nele, somente estava oferecendo sua
amizade. Sentiu vontade de chorar como nunca fizera antes - nem mesmo quando
era criança.
“Não
sei, senhor”, respondeu com uma voz baixinha.
“Você
é um leão. O que está fazendo aqui no meio dos carneiros? Por que está com
medo?”
“Sou
um carneiro, senhor”. Hari corrigiu timidamente.
“Você
é um leão!” - rosnou o leão. Era como o estrondo de um trovão sobre sua cabeça.
“Sim,
senhor.” Hari baliu e deu um passo para trás. Começou a chorar.
O
leão o olhou com bondade e meneou a cabeça.
“Isso
está mal”, disse como se falasse consigo mesmo. “Bem, meu filho, vamos ver. Eu
vivo no meio da floresta. Venha visitar-me e nós poderemos conversar de novo.
Isto é, se você quiser.”
“Oh,
sim, senhor”, disse Hari com um soluço.
O
leão sorriu. “Muito bem”, respondeu. Virou-se e dirigiu-se de volta à floresta.
Hari
continuou chorando o resto do dia. Toda vez que se recordava dos olhos do leão
tinha uma crise de choro. Era como se algo tivesse entrado em seu vazio e se
precipitasse em lágrimas. Ao mesmo tempo, nunca se sentira tão feliz em toda a
sua vida.
Na
manhã seguinte, antes do sol nascer, levantou-se e começou a colher os melhores
trevos da campina. Não os comeu, juntou-os delicadamente na boca para oferecer
ao leão. Então, sem despertar o rebanho, embrenhou-se na floresta, onde sua mãe
dissera-lhe para nunca se aventurar. Esse tinha sido o conselho mais sério que
ela lhe dera, tão sério que não se falava mais nisso, pois se tomara uma lei,
como não-ande-por-aí-sozinho ou não-coma-carne. [2]
A
floresta estava escura, formas sombrias moviam-se entre as árvores. Estranhos
ruídos pareciam ameaçá-lo e isso encheu seu coração de terror. Não conseguia
abrir a boca para balir, nem cerrar os dentes para revestir-se de coragem, pois
estava com a boca cheia de trevos macios. O medo deixou sua boca muito seca
mas, por estranho que pareça, estava contente. Isso mantinha os trevos fresquinhos
e agradáveis para o leão.
Mas
logo lhe ocorreu que não sabia exatamente para onde estava indo. Surgiu em sua
mente uma imagem de si mesmo. Era muito vivida: um carneirinho frágil,
vulnerável, perdido na floresta terrível e proibida. E para piorar ainda mais
sua difícil situação, entrar na floresta tinha sido uma atitude deliberada de
sua parte. Sentia-se muito ansioso. Pensou no rebanho ainda dormindo em uma
campina segura e acolhedora, livre de toda preocupação, que ele, de certo modo,
estava traindo. Sentiu uma onda de carinho e saudade da mãe, de quem não havia
nem mesmo se despedido. E pensou no leão, que falara realmente como um louco:
“Você
é um leão!”
Era
uma loucura. Uma grande loucura.
Não
obstante, Hari continuou entrando cada vez mais na floresta. Logo depois, o sol
levantou-se e a luz dispersou-se através das folhas. Ele devia estar correndo
há quase uma hora e, com certeza, estava próximo do coração da floresta, onde
vivia o leão. Então, foi assaltado outra vez pelo temor: e se o leão tivesse
esquecido? E se ele risse? Pela primeira vez Hari se deteve. “Sou um bobo”,
pensou. “Por quê motivo um leão iria falar com um carneiro? Ele estava só
caçoando de mim.” E, de repente, perdeu toda a força para seguir em frente.
Tremia da cabeça aos pés, num calafrio paralisante. Os trevos na boca lhe
pareciam absurdos. “Ele vai rir. Oh, como sou bobo. Um carneiro bobo, um bobo.”
Mas
ele desejava tanto ver, pelo menos mais uma vez, os olhos dourados do leão que
se obrigou a dar mais dez passos a esmo. “E se ele rir”, pensou; “Ora, ainda
assim eu o terei visto.”
Então,
como num passe de mágica, através da luz do sol e das sombras, o leão surgiu na
sua frente resplandecente e mais bonito do que Hari se lembrava.
“Bem,
bem”, ele disse. “Então você veio. Muito bem.”
De
repente, o coração de Hari incendiou-se de alegria e todo o medo desapareceu,
como se nunca tivesse existido. Curvou-se e depositou os trevos aos pés do
leão.
“É
para você”, disse tímido.
“Não
precisava se incomodar.” O leão sorriu e comeu a pilha de trevos até a última
folhinha, enquanto Hari observava e sentia-se infinitamente mais satisfeito e
contente do que se estivesse ele mesmo comendo.
“Obrigado”,
disse o leão ao terminar.
Hari
sentiu o sangue subir-lhe às faces e sussurrou: “Obrigado a você.”
O
leão olhou-o com bondade. “Bem”, perguntou, “está disposto a ficar?”
Hari
ficou de boca aberta. Esperava que o leão o deixasse ficar um pouco mais, uma
meia hora ou algo assim, mas era tudo o que tinha planejado.
“Acho
que tenho de voltar até a hora do almoço”, respondeu.
“Como
assim?”
“O
Clube dos Carneiros tem uma reunião hoje e, bem, minha mãe vai ficar
preocupada.”
“Ora,
esqueça isso!” - rugiu o leão. “Você é um leão! Fique longe dos carneiros.”
“Mas,
senhor, é minha gente”, baliu Hari. “Precisam de mim.”
“Para
quê?” - perguntou o leão.
“Ora,
eu faço eles rirem e se sentirem felizes e lá é meu lugar. É meu dever”,
acrescentou vivamente.
O
leão lambeu os beiços. “Muito bem”, disse friamente, “volte então. Mas não
espere me ver outra vez.” E olhou para o lado, como se o problema não fosse
dele.
Hari
ficou em silêncio, sem se mexer. Sabia, no fundo de seu ser, que nunca mais
deixaria o leão, apesar de parecer impossível a um carneiro até mesmo pensar em
tal ideia. Sua vida com o rebanho, toda a segurança e o conforto passaram por
sua mente; e mais uma vez ele viu a imagem incongruente e patética de um
carneirinho numa floresta estranha e aterradora. Mas a primeira imagem era sem
o Leão; e a segunda com o Leão. E o Leão era Algo que ele sempre havia
procurado.
“E
então?” - perguntou o leão depois de algum tempo. “Já se decidiu?”
“Sim,
senhor”, respondeu Hari. “Por favor, me deixe ficar.”
O
leão sorriu. “Vem comigo.” Conduziu-o a um lago tranqüilo, entre as árvores. “Chegue
aqui perto e olhe para a água. O que vê?”
Ele
viu dois magníficos leões de cara grande e um grosso colar de pelos dourados em
torno da cabeça.
“Vejo
dois leões”, respondeu. “O senhor e outro igual ao senhor, porém menor.”
“Você
é o outro”, disse-lhe o leão. “É o seu reflexo. Como vê, você é um leão.”
Então
explicou que Hari era um leão de verdade e não um carneiro, como pensava. E,
quando terminou, Hari disse:
“Mas,
senhor, se sou um leão como é que sou um carneiro?”
“Você
não é um carneiro”, o leão respondeu em alto e bom tom. “Estou lhe dizendo:
você é um leão.”
“Mas...”,
Hari começou.
“Não
tem nada de mas”, o leão rugiu e pisou firme no chão fazendo a água
tremer. Hari também tremeu.
“Sim,
senhor”, ele disse. Entretanto, terminou a frase para si mesmo: “...eu sou um
carneiro.”
O
leão olhou fixamente para ele e rugiu: “Se você quer ser um carneiro, por que
veio até aqui? Pode voltar se quiser. Vai se sentir melhor lá fora.” E começou
a afastar- se.
“Oh,
não, senhor!” - Hari o chamou. “Por favor, senhor.” O leão voltou.
“O
que quer?” - perguntou sério. “Decida-se.”
Hari
pensou por um longo tempo. Na verdade, ele gostaria de ser um leão, mas isso
estava além de todas as possibilidades. O reflexo na água era maravilhoso e
podia ser verdadeiro para leões, mas não para um carneiro. Ainda assim, ele não
queria continuar a ser um carneiro como fora até agora. Quem sabe um carneiro
com uma mistura de leão: sim, era isso!
“Quero
ser um carneiro bom e forte, senhor”, disse e achou que isso soara muito bem.
Mas
o leão tinha empinado a cabeça e o olhava firme. “Quer dizer então que você
quer ser um carneiro bom e forte. Muito bem! Volte para a campina e seja um
carneiro. Floresta não é lugar para um carneiro bom e forte. Floresta é lugar
de leões. Leões! Entende?” Enquanto falava, seu pêlo resplandeceu e ficou
luminoso e faíscas flamejaram dos olhos. Ele era a pura majestade.
Hari
ficou arrasado. O melhor, o mais forte, o mais bonito carneiro do mundo seria
como uma sombra ao lado de um leão verdadeiro. Nada mais era digno de existir.
“Posso
ser um leão?” - perguntou trêmulo.
“Você
tem alguma alternativa?” - respondeu o leão.
“Não,
senhor”, e quase ia dizendo “mas...”, porém ficou calado. Em vez disso, pediu: “Por
favor, senhor, me ensine.”
O
leão sorriu e olhou para as árvores, esquecendo-se aparentemente da existência
de Hari. Hari ficou ali parado, meio sem jeito, olhando para ele, esperando que
se lembrasse dele outra vez.
Depois
de um longo tempo, o leão o olhou. “Tudo bem”, disse. “Agora, medite em sua verdadeira
natureza. Repita: Eu sou um leão. Eu sou um leão.” Tente não balir muito. E
observe seu reflexo todos os dias.
“Sim,
senhor”, disse Hari. E ele sabia ter entregue sua vida nas mãos do leão e nada
mais grandioso do que isso podia acontecer a um carneiro. Seu coração ficou
cheio de uma alegria radiante, impossível de expressar em palavras. Prostrou-se
aos pés do mestre.
“Agora
viva aqui comigo e faça como lhe disse”, ordenou o leão.
Assim,
todas as manhãs, ao romper do dia, e todas as tardes, ao pôr-do-sol, Hari
sentava-se às margens do lago para meditar. Às vezes, sua mente divagava nos
assuntos de carneiros. Passavam em sua cabeça fragmentos das conversas que
mantinha no Clube dos Carneiros e memórias carinhosas da mãe chegavam a ele.
Mas, gradualmente, tais pensamentos tornaram-se cada vez mais vagos e ele
conseguia controlar a mente. “Eu sou um leão. Eu sou um leão”, repetia.
Tentou
isso dando ênfase diferente às palavras para dar-lhes uma entonação de rugido: “Eu
sou um leão. Eu sou um leão. Eu sou um leão.” Mas, nada mudara: ele ainda era
um carneiro - porém um carneiro que começava a sentir-se em casa na floresta,
que no começo parecera-lhe tão estranha e temível. Quando ele não estava
meditando, olhava-se no lago e estudava seu reflexo ou, melhor, sentava-se e
olhava profundamente para os olhos dourados do mestre e sentia estar olhando
para a própria eternidade. E estava sempre pronto para servir o leão,
antecipando suas mínimas necessidades. Às vezes o Leão contava-lhe histórias da
floresta e de outros leões. Às vezes, ralhava com ele por causa de seus hábitos
de carneiro, os olhos flamejavam como fogo e o rugido era como um trovão; mas
ele nunca o deixava só. Aqueles foram dias felizes.
Então,
certa manhã, inesperadamente, o leão rugiu para ele com o pior rugido que Hari
tinha ouvido até então.
“Pare
com esse balido! Pare de comer grama! O que há com você? Seja um leão!”
Hari
baixou a cabeça: “Não posso”, baliu.
“Então
fique longe de mim! Não quero mais ver sua cara. Não me siga.” Virou as costas
e afastou-se. E ficou fora por dias e dias. Isso era como a morte.
E
agora, em seu pesar, pela primeira vez, Hari desejou de todo o coração ser um
leão. Viu que a felicidade de ser um carneiro aos pés de um leão não podia
durar. E ficou envergonhado de ter-se contentado com isso: era uma fraude. “Tenho
que me tornar um leão”, disse consigo mesmo, “somente assim posso obedecer
verdadeiramente ao meu mestre”. O desejo cresceu como fogo dentro dele. “Não vou
ser um carneiro.” Parou de comer grama
e, portanto, parou de comer. “Vou ser um leão ou morrer.” Meditou com tanta
seriedade que uma vez ou duas sentiu a presença do Leão ali por perto, tão
perto como nunca o tinha sentido. Mas, quando abria os olhos, o Leão não estava
ali. Seu pesar e seu desejo não conheciam fronteiras.
Então,
certo dia, tão inesperadamente como havia partido, o leão retornou, brilhando
como o sol entre as árvores escuras. Em sua boca carregava um naco de carne
vermelha, gotejante. [3]
“Senhor!”
- gritou Hari e prostrou-se.
O
leão aproximou-se dele e, sem cumprimentá-lo, colocou a carne diante de seu
nariz.
“Coma!”
- ordenou.
E,
embora Hari soubesse que estava quebrando irrevogavelmente o elo final com sua
espécie, fez como lhe foi dito: afundou os dentes na carne vermelha e sentiu o
gosto do sangue.
Então
algo maravilhoso aconteceu. Sentiu uma vertigem na cabeça e raios de luz
penetraram em seu corpo. Uma força enorme fluiu através de cada nervo.
Sentiu-se grande e poderoso. A sensação de ser leão permeou cada célula de seu
ser. Tomou consciência de sua juba espessa, de seus dentes brilhantes, de seu
corpo forte e flexível; ficou ciente de sua realeza. E sabia, sem sombra de
dúvida, que o reflexo no lago era seu e que aquela luz dourada brilhando por
trás dos olhos do mestre era seu próprio Eu.
E,
de repente, ele rugiu.
NOTAS:
[1] “Contos
Mágicos da Índia”, Marie Louise Burke, Ed. Teosófica, Brasília, 1996, 144 pp.,
ver pp. 11 a 33. Agradecemos à Editora
Teosófica a autorização para publicar este conto em www.FilosofiaEsoterica.com e seus
websites associados.
[2] “Não-ande-por-aí-sozinho”
ou “não-coma-carne”. Estas expressões simbólicas
significam “tomar decisões por si próprio”, e “buscar a verdade pensando com independência”.
(CCA)
[3] Um
naco de carne vermelha, gotejante. A verdade filosófica nua e crua é
pronunciada pela boca dos sábios. Os discípulos diretos, ao ouvir, ficam perplexos.
A grama comida pelos carneiros simboliza as ideias convencionais repetidas cautelosamente
pelos que temem olhar os fatos de frente. (CCA)
Até breve!
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