3.6.11

54: O berço da religião



Deus é muito grandioso para
caber apenas numa religião


Olá!
Mais de 95% da população mundial acredita em Deus.
Mas quando surgiram as primeiras manifestações "religiosas"?
Surge uma nova teoria, veja abaixo:
Será que a religião organizada surgiu antes da agricultura?
Leia e reflita. Talvez sim...


Revista NATIONAL GEOGRAPHIC Brasil
Junho de 2011

Pensávamos que a agricultura fosse a mãe das cidades, da escrita e da arte. Agora o templo mais antigo do mundo sugere que a civilização nasceu do impulso da devoção.












Por Charles C. Mann
Foto de Vincent J. Musi





De tempos em tempos, a aurora da civilização é reencenada em uma remota colina no sul da Turquia. Os participantes chegam de ônibus turísticos, e são turcos em sua maioria. Os ônibus sobem aos solavancos pela estrada tortuosa e atracam como couraçados defronte a um portal de pedra na crista do monte. Despejam uma avalanche de gente às voltas com garrafas d'água e tocadores de MP 3. Os guias se esgoelam em instruções e explicações. Os visitantes não ligam e se dispersam monte acima. Quando chegam ao topo, é um festival de queixos caídos.


Dão de cara com dezenas de imensos pilares de pedra, dispostos em círculos, tombados uns sobre os outros. Conhecido como Göbekli Tepe, o sítio lembra Stonehenge, na Inglaterra, só que foi construído bem antes e não com blocos toscos, mas pilares de calcário esculpidos e decorados com baixos-relevos de animais: um cortejo de gazelas, serpentes, raposas, escorpiões e javalis ferozes. O conjunto foi erguido há cerca de 11,6 mil anos, sete milênios antes da Grande Pirâmide de Gizé. Ele contém o mais antigo templo conhecido. Göbekli Tepe, aliás, é o mais antigo exemplo de arquitetura monumental, a primeira estrutura maior e mais complexa que uma cabana que o homem já edificou. Pelo que sabemos, quando esses pilares foram erguidos, não existia nada no mundo em uma escala comparável.


Na época da construção de Göbekli Tepe, boa parte da raça humana reunia-se em pequenos grupos nômades que sobreviviam do extrativismo vegetal e da caça. Para edificar o sítio, foi preciso um ajuntamento de pessoas em dimensões inéditas. É impressionante que os construtores do templo tenham sido capazes de cortar, moldar e transportar pedras de 16 toneladas por centenas de metros sem dispor de rodas ou de animais de tração. Os peregrinos que vinham a Göbekli Tepe viviam em um mundo sem escrita, metal ou cerâmica; para quem se aproximava do templo vindo de baixo, os pilares assomavam como gigantes inflexíveis, e os animais entalhados, tremeluzindo à luz do fogo, deviam parecer emissários de um mundo espiritual que a mente humana talvez apenas começasse a conceber.

Os arqueólogos ainda estão escavando Göbekli Tepe e debatendo seu significado. Mas já sabem que esse sítio é o mais importante em uma série de descobertas inesperadas que revolucionaram as ideias anteriores sobre o passado remoto de nossa espécie. Há apenas 20 anos, a maioria dos estudiosos acreditava saber a época, o local e a sequência aproximada da Revolução Neolítica, a crucial transição que resultou no surgimento da agricultura e transformou o modo de vida do Homo sapiens. De caçadores-coletores em grupos esparsos os homens passaram a viver em povoações agrícolas e mais tarde em sociedades tecnologicamente refinadas, com grandes templos, torres, reis e sacerdotes que dirigiam o trabalho dos súditos e registravam seus feitos por escrito. Várias descobertas recentes, todavia, com destaque para Göbekli Tepe, estão forçando os arqueólogos a reconsiderar.

De início a Revolução Neolítica foi vista como um evento isolado - um lampejo de genialidade - ocorrido em um único local, a Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates na região do atual Iraque; teria depois se difundido para Índia, Europa e outras partes. A maioria dos arqueólogos supunha que esse repentino florescimento da civilização resultara sobretudo de mudanças ambientais: um aquecimento gradual em fins da Idade do Gelo, permitindo que pessoas começassem a cultivar plantas e criar animais em abundância. Os novos estudos sugerem que a "revolução", na verdade, foi obra de muitas mãos em uma área imensa, no decorrer de milhares de anos. E pode ter sido impulsionada não pelo ambiente, mas por um fator diferente.

Após um instante de deslumbramento, os turistas no sítio desembestam a fotografar com câmeras e celulares. Onze milênios atrás, ninguém tinha equipamento digital, é claro. Fora isso, as coisas mudaram menos do que se poderia pensar. A maioria dos grandes centros religiosos do mundo, no passado e no presente, é destino de peregrinações - Vaticano, Meca, Jerusalém, Bodh Gaya (onde Buda atingiu a iluminação), Cahokia (o enorme complexo dos nativos americanos próximo a St. Louis). São monumentos para viajantes espirituais, muitos deles vindos de longe para se admirar e se comover. Göbekli Tepe pode ter sido o primeiro desses centros, o protótipo. E sugere, ao menos para os arqueólogos que lá trabalham, que a noção do sagrado - sem falar da queda dos seres humanos por um bom espetáculo - pode ter ensejado a própria civilização.

Klaus Schmidt soube logo que iria trabalhar por muito tempo em Göbekli Tepe. Hoje pesquisador do Instituto Alemão de Arqueologia (DAI , na sigla em alemão), Schmidt passara o outono de 1994 percorrendo o sudeste da Turquia. Trabalhara em um sítio por alguns anos e agora procurava outro local para escavar. A maior cidade da região é Şanlıurfa. Para uma jovenzinha espevitada como Londres, Şanlıurfa é muito velha. Supõe-se que o profeta Abraão nasceu ali. Schmidt estava na cidade em busca de um lugar que o ajudasse a entender o Neolítico, um local que fizesse Şanlıurfa parecer recente. Ao norte, o solo ondula nos primeiros contrafortes das montanhas da Turquia meridional, a nascente dos rios Tigre e Eufrates. A 14 quilômetros da cidade, há uma cordilheira com uma crista arredondada que o povo local chama de Morro Barrigudo - Göbekli Tepe.

Nos anos 1960, arqueólogos da Universidade de Chicago haviam feito um levantamento preliminar da região e concluído que Göbekli Tepe não era muito promissor. Havia sinais de modificação no topo do monte, mas os estudiosos os atribuíram às atividades de um posto avançado militar da era bizantina. Viram pedaços esparsos de calcário e pensaram ser de lápides. Schmidt encontrou a breve descrição do monte feita pelos arqueólogos de Chicago e resolveu conferir. Viu no chão fragmentos de sílex - um número imenso. "Minutos depois de chegar", diz Schmidt, ele já percebera que estava em um lugar em que dezenas ou talvez centenas de pessoas haviam trabalhado milênios atrás. As placas de calcário não eram túmulos bizantinos, mas algo bem mais antigo. Ele começou a escavar no local no ano seguinte, em colaboração como o DAI e o Museu de Şanlıurfa.



Alguns centímetros sob a superfície, o grupo encontrou uma pedra trabalhada com esmero. Depois outra e mais outra - um círculo de pilares em pé. Com o passar dos meses e anos, a equipe de Schmidt, um grupo mutável de pós-graduandos alemães e turcos e 50 moradores da região, achou um segundo círculo de pedras, depois um terceiro e então outros. Estudos geomagnéticos revelaram em 2003 que existem pelo menos 20 círculos aglomerados a esmo debaixo da terra. Os pilares mais altos têm 5,5 metros de altura e pesam 16 toneladas. Animais em baixo-relevo enxameiam a superfície dos pilares, cada um em estilo diferente, uns poucos tão refinados e simbólicos quanto a arte bizantina. Outras partes do monte estavam juncadas com o maior depósito de utensílios antigos de sílex que Schmidt já vira - um armazém neolítico de facas, machadinhas e projéteis pontiagudos. Embora tenha sido preciso transportar as pedras de vales vizinhos, diz Schmidt, "havia aqui mais sílices em uma pequena área de 1 ou 2 metros quadrados do que muitos arqueólogos encontram em sítios inteiros".

Os círculos seguem a mesma configuração. Todos são feitos de pilares de calcário moldados como um espigão ou um T maiúsculo. Em feitio de lâmina, os pilares têm cerca de cinco vezes mais largura que profundidade. Estão separados pela distância de um braço ou mais, e interligados por muros baixos de pedra. No meio de cada círculo há dois pilares mais altos, com as extremidades finas espetadas em encaixes rasos entalhados no chão. Pergunto a Eduard Knoll, arquiteto alemão que trabalha com Schmidt na preservação do sítio, se esse sistema de montagem é adequado aos pilares centrais. "Não", responde ele. "Eles ainda não haviam dominado a engenharia." Knoll supõe que os pilares podem ter sido escorados, talvez, por postes de madeira.

Para Schmidt, os pilares em forma de T retratam seres humanos estilizados. Essa ideia é reforçada pelo entalhe de braços fazendo ângulo com os "ombros" de alguns dos pilares, de mãos estendidas na direção do ventre coberto por uma tanga. As pedras estão voltadas para o centro do círculo, como em uma "reunião ou dança", diz Schmidt. Talvez sejam uma representação de um ritual religioso. Quanto às figuras de animais correndo e saltando, Schmidt notou que a maioria é de bichos perigosos: escorpiões, javalis em pleno ataque, leões ferozes. É possível que as figuras representadas pelos pilares, que talvez servissem como totens, fossem guardadas pelos animais.

Os enigmas acumularam-se conforme as escavações prosseguiram. Por razões ainda desconhecidas, os círculos de Göbekli Tepe parecem ter perdido periodicamente seu poder - ou pelo menos seu encanto. A intervalos de poucas décadas, as pessoas enterravam os pilares e erigiam novas pedras - um círculo menor dentro do primeiro. Em alguns casos, depois, instalavam um terceiro. Por fim, enchiam tudo com entulho e faziam um círculo novo nas proximidades. O sítio talvez tenha sido construído, atulhado e reconstruído ao longo de vários séculos.

Curiosamente, a competência do povo de Göbekli Tepe para construir seus templos foi decaindo. Os círculos mais antigos são os maiores e têm arte e técnica mais refinadas. Ao longo do tempo, os pilares diminuíram e mais simples, assentados com cuidado cada vez menor. Os esforços parecem ter cessado por completo em 8200 a.C., quando tudo era declínio em Göbekli Tepe.

Tão importante quanto o que os pesquisadores encontraram foi o que não encontraram: sinais de habitação. Deve ter sido preciso centenas de pessoas para esculpir e erigir os pilares, mas o sítio não tinha nenhuma fonte de água - o rio mais próximo ficava a uns 5 quilômetros. Esses trabalhadores precisariam de moradia; porém, as escavações não acharam sinais de paredes, lareiras ou casas, nenhuma construção que Schmidt tenha interpretado como doméstica. Precisariam ser alimentados, mas também não há sinais de agricultura. Aliás, Schmidt não encontrou cozinhas coletivas nem fogueiras de cozinhar. O centro era um espaço cerimonial. Se alguém já viveu nesse local, não foi como residente, e sim a trabalho. A julgar pelos milhares de ossos de gazela e auroque achados no sítio, os trabalhadores parecem ter sido alimentados por remessas constantes de animais de caça vindas de locais distantes. Todo esse complexo empreendimento deve ter sido organizado por planejadores e capatazes, mas até agora não há indícios de hierarquia social. Não há nenhuma área habitacional reservada para os ricos, nenhuma tumba contendo bens de elite, nenhum sinal de que uns tinham dieta melhor que os outros.

"Eles eram extrativistas", diz Schmidt, ou seja, viviam da coleta de plantas silvestres e da caça. "A ideia que tínhamos dos coletores sempre fora de grupos pequenos e nômades de algumas dezenas de pessoas. Não podiam construir estruturas permanentes, pensávamos, porque precisariam se deslocar em busca de recursos. Não podiam manter nenhuma classe especial de sacerdotes e artesãos, pois não podiam transportar todos os suprimentos extras para alimentá-los. Mas eis Göbekli Tepe, uma prova de que eles faziam tudo isso."

Descobrir que caçadores-coletores construíram Göbekli Tepe foi como descobrir que alguém montou um Boeing 747 em um porão usando um estilete. "Eu, meus colegas, todos nós ficamos perplexos", conta Schmidt. Paradoxalmente, o sítio pareceu ser ao mesmo tempo arauto do futuro mundo civilizado e o último, o mais grandioso emblema de um passado nômade que estava desaparecendo. Foi um feito assombroso, mas era difícil compreender como fora realizado ou o que significava. "Em dez ou 15 anos", prevê Schmidt, "Göbekli Tepe será mais famoso que Stonehenge. E por boas razões.


Paira sobre Göbekli Tepe o fantasma de V. Gordon Childe. Australiano transplantado para a Inglaterra, Childe era um sujeito espalhafatoso, um marxista de carteirinha que andava de calção de golfe e gravata-borboleta e recheava seus discursos com louvores ao stalinismo. Acontece que ele foi um dos mais influentes arqueólogos do século passado. Grande sintetizador, Childe articulou as descobertas desconexas de seus colegas, elaborando esquemas intelectuais abrangentes. O mais famoso deles, apresentado nos anos 1920, é o conceito de Revolução Neolítica.

Em termos atuais, poderíamos resumir assim as ideias de Childe: o Homo sapiens surgiu em cena há cerca de 200 mil anos. Por boa parte dos milênios que se seguiram, a espécie mudou pouco, e os seres humanos viveram em pequenos grupos de extrativistas nômades. Ocorreu então a Revolução Neolítica, uma "mudança radical", diz Childe, "repleta de consequências revolucionárias para a nossa espécie". Em um relâmpago de inspiração, parte da humanidade voltou as costas ao extrativismo e adotou a agricultura. A prática do cultivo, segundo Childe, trouxe mais transformações. Para cuidar das plantações, as pessoas tiveram de parar com os deslocamentos e se fixar em povoações permanentes, onde criaram novas ferramentas e inventaram a cerâmica. A Revolução Neolítica, para Childe, foi um acontecimento de tremenda importância: "O maior da história humana depois do domínio do fogo".

De todos os aspectos da revolução, a agricultura foi o mais importante. Por milhares de anos, homens e mulheres haviam perambulado por aquelas terras munidos de utensílios de pedra, cortando e levando para casa espigas de grãos silvestres. Embora esses primtivos possam ter cuidado das plantas que encontravam, ainda assim a vegetação era selvagem. O trigo e a cevada silvestres, ao contrário de suas versões domesticadas, despedaçam-se quando maduros; os grãos se soltam da planta e se espalham pelo chão, o que impossibilita colhê-los quando amadurecem. Geneticamente falando, a verdadeira cultura de grãos só começou quando os seres humanos cultivaram grandes áreas com plantas que haviam sofrido mutação e não se despedaçavam ao amadurecer, criando campos de trigo e cevada domesticados para a colheita.

Em vez de esquadrinhar o território para achar comida, agora as pessoas podiam cultivála conforme suas necessidades e onde precisassem, e assim viver juntas em grupos maiores. O crescimento da população foi estratosférico. "Só após a revolução - imediatamente depois - nossa espécie começou a se multiplicar depressa", escreveu Childe. Nessas sociedades mais populosas, as ideias puderam ser trocadas com maior facilidade, e o ritmo da inovação tecnológica e social acelerou-se. Floresceram a religião e a arte, as marcas registradas da civilização.

Childe, como a maioria dos pesquisadores atuais, acreditava que a revolução havia começado no Crescente Fértil, a faixa de terra que se arqueia para o noroeste a partir de Gaza, passa pelo sul da Turquia e se dobra a sudeste, entrando no Iraque. Fazendo fronteira no sul com o implacável deserto da Síria e no norte com as montanhas da Turquia, o Crescente é um trecho de clima temperado cercado de extremos inóspitos. Sua ponta oriental é a confluência dos rios Tigre e Eufrates no sul do Iraque - região de um reino conhecido como Suméria, que remonta a 4000 a.C. Na época de Childe, a maioria dos estudiosos julgava que a Suméria representava o nascimento da civilização. O arqueólogo Samuel Noah Kramer resumiu essa posição nos anos 1950 em seu livro A História Começa na Suméria. Mas, antes de Kramer concluir sua obra, as ideias já estavam sendo revistas no lado oposto do Crescente Fértil, o oeste. No Levante - a área que hoje engloba Israel, os territórios palestinos, Líbano, Jordânia e oeste da Síria - os arqueólogos haviam descoberto povoações datadas de 13000 a.C. Conhecidos como povoados natufianos (o nome do primeiro sítio descoberto), eles se espalharam por todo o Levante em fins da Idade do Gelo, quando teve início um período de clima quente e úmido na região.

A descoberta dos natufianos foi a primeira pedrada na vidraça da Revolução Neolítica de Childe. Ele apontara a agricultura como a fagulha necessária para permitir as povoações e iniciar a civilização. Mas, embora os natufianos vivessem em povoados com até centenas de pessoas, eram extrativistas, e não agricultores; caçavam gazelas e coletavam centeio, aveia e trigo silvestres. "Foi um sinal de que precisávamos reformular nossas ideias", diz o arqueólogo Ofer Bar-Yosef.

Os povoados natufianos enfrentaram tempos difíceis por volta de 10800 a.C. As temperaturas na região sofreram quedas abruptas em torno de 7oC, uma mini-idade do gelo que durou 1,2 mil anos e aumentou a aridez no Crescente Fértil. O hábitat animal e as áreas onde cresciam os grãos se reduziram, e vários povoados viramse populosos demais para a quantidade de alimentos local. Boa parte dessa população reverteu ao extrativismo nômade, varando a região em busca de fontes de alimento remanescentes.

Alguns povoados tentaram se adaptar às condições mais áridas. O de Abu Hureya, onde hoje é o norte da Síria, parece ter tentado o cultivo dos pés de centeio locais, talvez com o replantio. Depois de examinar os grãos achados no sítio, os ingleses Gordon Hillman e Andrew Moore concluíram em 2000 que alguns eram maiores que seus equivalentes silvestres - um possível sinal de domesticação, pois o cultivo melhora qualidades que as pessoas valorizam, como o tamanho das frutas e sementes. Bar-Yosef e outros pesquisadores deduziram que sítios próximos, como Mureybet e Tell Qaramel, também tiveram agricultura.


Se esses arqueólogos estivessem certos, tais protovilarejos permitiriam uma outra explicação para o nascimento da sociedade complexa. Childe supôs que a agricultura veio primeiro, que foi a inovação que permitiu ao homem aproveitar a oportunidade de um novo ambiente favorável para ampliar seu domínio sobre a natureza. Os sítios natufianos no Levante, por sua vez, sugerem que primeiro o homem se fixou em povoações e depois, em consequência de uma crise, surgiu a agricultura. Diante da aridez e do resfriamento do ambiente e do crescimento de suas populações, como especula Bar-Yosef, os seres humanos nas áreas que ainda permaneciam férteis teriam pensado: "Se nos mudarmos, outros virão explorar nossos recursos. Para sobreviver, o melhor a fazer é ficar aqui e explorar nosso território". A agricultura teria sido o resultado.

Foi fácil, nos anos 1990, entender a ideia de que a Revolução Neolítica teve por impulso uma mudança climática, dada a nossa própria preocupação com os efeitos do aquecimento global. A hipótese foi defendida em inúmeros artigos e livros e por fim sacramentada na Wikipedia. Mas os críticos argumentam que as evidências são fracas, sobretudo porque Abu Hureyra, Mureybet e outros sítios no norte da Síria foram inundados por represas antes de ser bem escavados. "Era uma teoria sobre as origens da cultura humana que se baseava em meia dúzia de sementes graúdas", diz George Willcox, especialista do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França.

Não seria mais provável que esses grãos tenham inchado durante a torrefação ou que alguém em Abu Hureyra tenha encontrado um centeio selvagem diferente? Enquanto fervia o debate sobre os natufianos, Klaus Schmidt trabalhava em Göbekli Tepe. E isso iria, de novo, forçar muitos estudiosos a reavaliar suas ideias.

Antropólogos supõem que a religião organizada começou como um recurso para mitigar as tensões que surgiram quando os caçadorescoletores se fixaram, adotaram a agricultura e desenvolveram sociedades populosas. Comparada a um grupo nômade, a sociedade de um vilarejo tem objetivos complexos e de mais longo prazo: armazenar grãos, manter habitações. É maior a probabilidade de que os moradores alcancem esses objetivos se os membros se comprometerem com o empreendimento coletivo. Embora práticas religiosas primitivas - sepultar os mortos, criar arte em cavernas, esculpir estatuetas - houvessem surgido dezenas de milhares de anos antes, a religião organizada, segundo essa concepção, só veio a emergir quando foi necessária uma visão comum da ordem celestial para dar coesão a novos, numerosos e frágeis grupos humanos. Ela também poderia ter ajudado a justificar a hierarquia social que se formava em uma sociedade mais complexa. Os que ascendiam ao poder eram vistos como dotados de uma ligação especial com os deuses. Comunidades de fiéis, unidas em uma visão sobre o mundo e seu lugar nele, eram mais sólidas que os meros ajuntamentos de gente briguenta.

Göbekli Tepe, na opinião de Schmidt, sugere um cenário inverso: a construção de um templo por um grupo de extrativistas é indício de que a religião organizada pode ter surgido antes da agricultura e dos outros aspectos da civilização. Sugere que o impulso de se reunir para rituais sagrados nasceu quando os seres humanos deixaram de se ver como parte do mundo natural e passaram a buscar o domínio sobre a natureza. Quando os extrativistas começaram a se fixar em povoações, criaram uma divisão entre a esfera humana - o aglomerado fixo de casas com centenas de habitantes - e a perigosa terra além da fogueira, povoada por animais mortíferos.

O arqueólogo francês Jacques Cauvin supôs que essa mudança de mentalidade foi uma "revolução de símbolos", um desvio conceitual que permitiu aos seres humanos imaginar deuses - seres sobrenaturais à semelhança do homem - em um universo fora do mundo físico. Schmidt vê Göbekli Tepe como uma evidência em favor da teoria de Cauvin. "Os animais eram guardiões do mundo dos espíritos", diz. "Os relevos esculpidos nos pilares em T ilustram esse outro mundo."

Schmidt imagina que os extrativistas que viviam em um raio de 160 quilômetros de Göbekli Tepe tenham criado o templo como um local sagrado para se reunir em eventos, e talvez trazer presentes e tributos a seus sacerdotes e artesãos. Teria sido preciso algum tipo de organização social não só para construir mas também para lidar com as multidões que o lugar atraía. Podemos imaginar cantos e tambores, os animais nos grandes pilares dando a impressão de se moverem à luz bruxuleante das tochas. Decerto havia festas; Schmidt descobriu bacias de pedra que talvez tenham sido usadas para cerveja. O templo era um locus espiritual, mas também pode ter sido a versão neolítica da Disneylândia.

Com o passar do tempo, acredita Schmidt, a necessidade de obter alimento suficiente aos que trabalhavam e se reuniam nas cerimônias em Göbekli Tepe pode ter levado ao cultivo intensivo de cereais silvestres e à criação de algumas das variedades domesticadas. De fato, hoje os cientistas supõem que um centro agrícola surgiu no sul da Turquia, a uma distância factível de Göbekli Teppe, bem na época em que o templo estava no auge. Os ancestrais silvestres mais próximos conhecidos da espécie de trigo Triticum monococcum são encontrados nas encostas de Karaca Dağ, uma montanha a 96 quilômetros no nordeste de Göbekli Tepe. Em outras palavras, a guinada para a agricultura apregoada por V. Gordon Childe pode ter sido resultado de uma necessidade arraigada na mente humana, uma fome que ainda impele pessoas a viajar pelo globo em busca de visões inspiradoras de reverência.


Algumas das primeiras evidências de domesticação de plantas provêm de Nevalı Çori, um povoado nas montanhas a mais de 30 quilômetros. Como Göbekli Tepe, Nevalı Çori surgiu logo depois da mini-idade do gelo, uma época que os arqueólogos designam pelo insosso termo Neolítico Pré-Cerâmica (NPC ). Nevalı Çori agora está inundado por um lago de uma usina hidrelétrica. Mas, antes que as águas impedissem as pesquisas, arqueólogos encontraram pilares em forma de T e imagens de animais parecidos com os que Schmidt mais tarde descobriria em Göbekli Tepe. Pilares e imagens semelhantes existiram em povoações do NPC distantes 160 quilômetros de Göbekli Tepe. Assim como hoje é possível supor que os lares com cenas da Virgem Maria pertencem a cristãos, diz Schmidt, as imagens nesses sítios do NPC indicam uma religião comum - uma comunidade de fé ao redor de Göbekli Teppe que pode ter sido o primeiro grupo religioso de fato grande no mundo.

Naturalmente, há colegas de Schmidt que discordam dele. A ausência de indícios de casas, por exemplo, não prova que ninguém vivia em Göbekli Tepe. E os arqueólogos que estudam as origens da civilização no Crescente Fértil andam cada vez mais desconfiados de qualquer tentativa de imaginar um cenário que sirva a todos os casos, de apontar uma causa principal única. Mais provável é que os ocupantes desses vários sítios estivessem experimentando com os blocos construtores da civilização, tentando encontrar combinações que funcionassem. Em um lugar, a agricultura pode ter sido o alicerce; em outro, a arte e a religião; mais adiante, as pressões populacionais ou a hierarquia social podem ter sido o motor. Por fim, todos acabaram no mesmo lugar. Talvez não tenha havido um caminho único para a civilização, e a humanidade tenha chegado a ela por diferentes meios e em lugares distintos.

O ano de 2011 assinala o 17º aniversário do trabalho de Klaus Schmidt no local. Nos anais da arqueologia, o que não falta é cientista que, na afobação, descuida e arruína achados importantes, destruindo para sempre as chances de conhecimento. Schmidt está decidido a não pôr seu nome nessa lista. Hoje, menos de um décimo do sítio de 9 hectares se encontra sob o sol.

Schmidt ressalta que investigações adicionais em Göbekli Tepe podem mudar sua opinião atual sobre a importância do sítio. Nem mesmo a idade está definida: Schmidt não tem certeza de que atingiu a camada mais profunda. "A cada mistério que solucionamos, desenterramos mais dois", diz. Apesar disso, ele já chegou a algumas conclusões. "Vinte anos atrás todos acreditavam que a civilização era impulsionada por forças ecológicas", reflete. "Acho que agora estamos aprendendo que ela é produto da mente humana."

"A religião está no coração, não nos joelhos."
Jerold Douglas William

2.6.11

53: Livro "Pequenos milagres"



A vida é uma sucessão de
milhares de pequenos milagres


Olá!
Hoje tive outro dia muito bom! Sinto que não precisam ocorrer super eventos para que eu me sinta assim. Basta apenas que eu esteja aberta para ver o aspecto sagrado da vida oculto nas pequenas coisas do cotidiano. Trabalhei, fiz compras, arrumei o apartamento, verifiquei meus emails, falei com meu amor, li, vi TV, pensei na vida, cozinhei, ri, sonhei, fui jantar fora com minha mãe e meu sobrinho num delicioso restaurante italiano... vivi! 



Nada de extraordinário aconteceu para que eu me sentisse tão bem, mas talvez seja justamente isso que me deixa feliz, pois nada de ruim aconteceu e isso é muito bom. Certa vez recebi um texto que dizia para agradecermos à rotina dos dias comuns, pois significa que nenhum parente ou conhecido faleceu naquele dia, nem se acidentou, nem recebeu nenhuma notícia ruim, nem nada de mal ocorreu comigo ou com o mundo em geral (grandes tragédias). 



Hoje, pela primeira vez sinto que isto que escrevi basta. Excepcionalmente eu poderia parar por aqui, mas será que consigo??? Assim que ia colocar um ponto final, um dos meus livros me chamou a atenção. É uma coletânea norte americana de histórias reais de famílias judias, chamada: "Pequenos Milagres - Coincidências extraordinárias do dia-a-dia", das autoras Ytta Halberstam e Juduth Leventhal. 



Apesar de ser um livro "judeu", ganhei da minha irmã no natal do ano retrasado. Num dos momentos mais difíceis da vida da minha mãe e do meu pai eu li algumas histórias para eles, principalmente quando meu pai estava na UTI. Algumas são simples, outras divertidas, algumas tristes, outras inspiradoras, algumas surpreendentes; mas todas tem uma mensagem que vale a pena, um "pequeno milagre".


Milagres ainda acontecem

A coletânea contem umas 30 ou mais histórias. Segue abaixo umas das minhas favoritas. Realmente toca o meu coração e me inspira. Além disso, ela me faz sentir uma imensa gratidão pelos meus pais. Eles sempre me deixaram muito livre para descobrir minha jornada na vida, principalmente em se tratando de meu lado espiritual. Jamais me criticaram, não importa qual era o local ou filosofia eu estivesse seguindo naquele momento, sempre me apoiaram e isso não tem preço.



Para ser sincera, não foi apenas o fato de que me deixaram livre. Eles me encorajaram. Não sei quantos livros, cursos, seminários eu fui em que eles patrocinaram de alguma forma. Também me ouviam e diversas vezes acabaram conhecendo estes locais, livros, ideias. Isso não é fantástico? Eu acho! Me sinto privilegiada! Se eu tiver filhos, espero conseguir agir assim.



Sim, eu repito: meus pais sempre foram muito abertos e especiais. Que pena que nem todos os pais sejam assim. Nascemos livres e cada um tem o direito de fazer as suas escolhas e de respeitar as escolhas alheias, pois há muitos caminhos que levam à Deus. 



Escolha o seu e confie que os demais escolherão o melhor para eles. Todos somos únicos, não nascemos para fazer as coisas da mesma maneira. Deus se manifesta sobre infinitas formas através de cada ser deste planeta. Todas as religiões e filosofias tem seu potencial para ser um caminho até o sagrado. Certas pessoas, em todos estes locais, são fundamentalistas, mas isso não tira o mérito destes locais.



Se puder, leia até o final, a mensagem é belíssima. Apesar de sofrer com esta história, acho que compreendo o que ambos passaram, pois se eu estivesse no lugar deles, talvez agisse exatamente igual, ou até pior, pois minha vida foi muito diferente. Difícil adivinhar... Espero que o "Joey" esteja vivo e muito bem! Vamos lá?



Ele nasceu para levar uma vida privilegiada e - como a época ordenava - rebelou-se violentamente aos 19 anos de idade. Trajando o uniforme de brim desbotado e rasgado da sua geração, Joey Riklis* abandonou a faculdade, largou o emprego de meio expediente e anunciou ao seu pai viúvo que ia viajar para a Índia em busca de "iluminação". 


Adam Riklis suportou o golpe com tranquilidade e elegância, respeitando o conselho de amigos que recomendaram paciência, tolerância e amor. Joey estava agindo de modo "normal para sua idade", explicaram, confiantes e certos de que a tempestade logo passaria. Portanto, Adam disse ao filho que entendia que ele estava testando as asas e moldando sua própria identidade, e lhe garantiu que aceitava sua decisão. No entanto, quando Joey revelou um dia que havia rompido os laços com sua religião, o pai perdeu o controle.


Adam Riklis era sobrevivente do Holocausto. Toda a sua família havia sido assassinada pelos nazistas, e ele sozinho havia suportado as provações atrozes dos três campos de concentração. Ao saber que era o único sobrevivente da família, havia feito em silêncio o voto de que a religião pela qual seus parentes haviam morrido não morreria com ele. 


Embora muitos sobreviventes houvessem assumido a atitude oposta, abandonando a religião da sua juventude cheios de raiva e dor, a perspectiva de Adam havia sido totalmente diferente. Abandonar a religião de seus parentes exterminados seria uma traição às suas vidas... e às suas mortes.


Em Cleveland, Adam se havia aferrado às tradições e rituais religiosos judaicos, incorporando-os meticulosamente à rotina da família. Mandou os filhos para a escola hebraica, costumava levá-los com regularidade à sinagoga e se certificou de que eles cumprissem estritamente a lei religiosa. 


Sentia orgulho por ter criado filhos religiosos que levariam adiante a herança cultural da família. Agora, porém, seu próprio filho estava anunciando que desprezava esse legado, que desdenhava as perdas sofridas pela família. Adam conseguia suportar qualquer coisa, menos isso.


- Saia da minha frente! - berrou para Joey. - Saia da minha casa e não volte nunca mais! Você não é meu filho. Eu o renego do meu coração, da minha alma, da minha vida. Não quero vê-lo nunca mais na vida!
- Ótimo, por mim tudo bem - respondeu Joey aos gritos - porque eu também não quero vê-lo nunca mais!


Na Índia, Joey viajou de um guru para outro, procurando a sabedoria, a espiritualidade, respostas concretas para os mistérios insondáveis da vida. Durante suas viagens ele se uniu a Sarah, seu equivalente feminino sob muitos aspectos. 


Ela também havia saído de um lar de judeus religiosos e estava à procura de outro caminho espiritual. Os dois tinham certeza de serem "almas gêmeas". Já estavam juntos havia seis anos quando Joey se encontrou por acaso com um antigo colega de escola de Cleveland numa esquina de Bombaim.


Joey e Sammy abraçavam-se, felizes. "Isto é incrível!", disseram um ao outro. Estavam trocando avidamente histórias das suas respectivas aventuras quando Sammy falou em tom sombrio:
- É Joey, senti muito mesmo quando soube do sue pai.
- Meu pai? - repetiu Joey, sem entender. - O que está querendo dizer?
- Ai, meu Deus, desculpe. Então você não sabe...
- Não sei o quê? - perguntou Joey, agora tenso de pavor. 
- Bem, Joey, seu pai morreu há uns dois meses. Ninguém lhe escreveu?


- Ninguém sabia onde eu estava - respondeu Joey, devagar, estarrecido com a notícia. - De que ele morreu?
- De um ataque do coração.
- Não foi de um ataque - disse Joey, com os olhos cheios de lágrimas. - Foi mais de coração partido, tenho certeza. E eu sou a causa. Eu o matei. Matei meu próprio pai.
- Joey, não seja ridículo. - murmurou Sarah, tocando seu ombro, compadecida. - Você não teve nada a ver com a morte de seu pai!
- Sarah, você está enganada! - respondeu Joey. - Eu tive tudo a ver com a morte de meu pai!


Durante alguns dias, Joey viveu como que entorpecido, desnorteado de dor e remorso. Tinha a certeza avassaladora de que o sofrimento que havia causado ao pai lhe tirara a vida. No fundo, sempre havia esperado por uma reconciliação. Agora, ele nunca mais poderia pedir perdão ao pai ou voltar para o caloroso abraço do seu amor.
- Sarah - disse ele, abanando a cabeça, entristecido - não dá mais para eu continuar desse jeito. A Índia não tem mais graça para mim. Sei que você vai me achar estranho, mas preciso ir... a Israel.


- Israel?! - exclamou Sarah, surpresa, franzindo o nariz com repugnância como só um rebelde religioso inveretado conseguiria.
- Por que você quer ir a Israel?
- Só estou sentindo esse impulso, Sarah. Não dá para explicar, mas preciso ir.
- Está bem, está bem, então vamos - concordou Sarah, insatisfeita.


Quando o avião aterrisou, Joey voltou-se para Sarah e disse que queria ir rezar.
- Você está querendo me apavorar, Joey? - perguntou ela.
- Sarah, por favor! Quero ir ao Muro. É a única estrutura que resta do Primeiro e do Segundo Templo, considerado o local mais sagrado de Jerusalém. Acredita-se que a presença de Deus seja mais forte ali do que em qualquer outro ponto de Israel. É aonde pessoas do mundo inteiro vão para orar, implorar a Deus, pedir milagres. O que eu quero fazer é implorar o perdão do meu pai. Você me entende?


- Estou entendendo muito bem, Joey. Vejo que você não é o mesmo Joey que conheci todos esses anos. Você costumava rir comigo de toda essa bobagem. E agora quer ir orar diante de um muro.
- Olhe, Sarah, estou sofrendo. Eu amava meu pai. Ele morreu. Minha impressão é a de que eu o matei. Por que você está dificultando tanto as coisas pra mim?


Os dois discutiram por uma hora e acabaram decidindo se separar.
- Sarah, não sei por que isso está acontecendo - disse Joey, estristecido. - Eu achava que você era a minha alma gêmea.
- E sou - disse ela baixinho, dando-lhe um beijo terno e pesaroso. - Mas nossas almas simplesmente não estão mais em sintonia. Adeus, Joey.


Aproximando-se do Muro a pé, Joey de longe observou os grupos de pessoas que deixavam a praça apinhada. Etíopes com barretes africanos, iemenitas nas tradicionais túnicas brancas, americanos usando camisetas e pequenos solidéus. Todos vinham tocar as pedras frias com os lábios, chorar lágrimas mornas e, fervorosos, rogar a Deus que atendesse a seus pedidos pessoais.


Joey abordou um segurança, um dos muitos que examinavam, tensos, a multidão.
- Por favor, existe algum lugar por aqui onde eu possa conseguir um livro de orações?
E silêncio, o segurança apontou na direção de um rabino barbudo, que estava distribuindo artigos religiosos (solidéus, livros de orações, véus para as mulheres) aos não-iniciados.


Com um solidéu emprestado e segurando um livro de orações, Joey encaminhou-se para um trecho do Muro. Observando os outros e imitando seus movimentos, ele encostou a cabeça na pedra lisa, procurou encobri-la com o braço para criar uma aura de privacidade e começou a orar em silêncio. 


Achava que as palavras lhe pareceriam estranhas depois de todos esses anos, mas, em vez disso, elas fluíam dele numa sucessão familiar e reconfortante. Joey fechou os olhos e recordou a entoação que seu pai dava àquelas mesmas palavras, à medida que ia sendo transportado de volta na lembrança a territórios diferentes, ao mundo da sua juventude.


- Ai, papai - disse aos soluções. - Como eu queria poder pedir seu perdão! Como queria poder lhe dizer como o amo! Como me arrependo de toda a dor que lhe causei! Eu não pretendia feri-lo, estava só tentando encontrar meu caminho. Você era tudo para mim. Queria poder lhe dizer isso.


Quando Joey terminou sua oração, ele se voltou, sem saber o que fazer em seguida. Notou, então, que as pessoas ao seu redor escreviam bilhetes e o inseriam nas fendas do Muro. Curioso para saber o que significava esse comportamento, ele abordou um rapaz.


- Com licença, por que tantas pessoas estão enfiando pedacinhos de papel nas fendas do Muro?
- Ah, são seus pedidos - respondeu o jovem - suas orações. Acredita-se que as pedras sejam tão sagradas que pedidos colocados dentro delas recebam uma bênção especial.
- Eu posso fazer isso também? - Perguntou Joey, intrigado.
- Claro! Mas saiba que não é fácil encontrar uma fenda vazia! - disse o rapaz, rindo. - É que os judeus vêm aqui há séculos para importunar Deus com suas orações!


Joey escreveu: "Querido pai, imploro-lhe que me perdoe pela dor que lhe causei. Eu o amava muito e nunca me esquecerei de você. E, por favor, saiba que nada do que me ensinou foi em vão. Não trairei os mortos da sua família. Eu prometo."


Quando terminou de escrever o bilhete, Joey procurou uma fenda vazia. O rapaz não havia exagerado. Todas as fissuras da parede estavam cheias, entulhadas, repletas de bilhetes de suplicantes, e ele levou quase uma hora para encontrar um canto que lhe pareceu vazio. 


Mas, quando Joey enfiou seu próprio papelzinho na fenda, acidentalmente fez cair no chão outro que já estava lá. "Ai, não! Tirei do lugar o papel de outra pessoa!", pensou Joey, com um pouco de pânico, perguntando-se o que deveria fazer. 


Abaixou-se para recuperá-lo e, segurando o papel enrolado na palma da mão, começou a procurar por outro espaço no qual pudesse enfiá-lo. De repente, porém, dominado por uma  curiosidade tremenda, Joey desenrolou a nota para examinar seu teor. E leu o seguinte:


"Meu querido filho Joey, se algum dia você vier a Israel e por algum milagre encontrar este bilhete, eis o que quero que você saiba: eu sempre o amei, mesmo quando você me magoou, e nunca vou deixar de amá-lo. Você é e sempre será meu filho amado. E, Joey, por favor, saiba que eu o perdôo por tudo, e só espero que você, por sua vez, perdoe um velho bobo." O bilhete estava assinado "Adam Riklis, Cleveland, Ohio."


- O senhor está passando bem? Senhor... senhor? - A voz incorpórea vinha de longe, rompendo os devaneios de Joey. Ele não sabia quanto tempo ficara em pé ali, entorpecido, paralisado de choque, segurando o bilhete do pai na mão trêmula, com as lágrimas escorrendo o rosto. Desnorteado, ele se voltou para encarar o rapaz que momentos antes lhe dera informações sobre a redação de pedidos.


- Ouça - disse o rapaz afetuosamente, passando o braço com compaixão em volta do ombro de Joey. - Você não precisa me contar. Já vai começar o Sabá. O sol está quase se pondo. Gostaria de passá-lo comigo?


Três anos depois, Joey havia voltado para sua religião e dedicava todo seu tempo aos estudos rabínicos.
- Acho que está na hora de você casar - disse-lhe o rabino-chefe um dia. - Minha mulher gosta de se fazer de casamenteira e diz que conhece uma moça perfeita para você, sua verdadeira alma gêmea. É alguém como você, que voltou ao judaísmo e estuda na escola feminina da minha mulher. Venha jantar em nossa casa hoje à noite; ela estará lá.


Naquela noite, Joey entrou na casa do rabino e foi encaminhado à sala de estar. Ali, sentada no sofá, estava nada mais, nada menos do que seu antigo amor, Sarah. Os dois se encararam com surpresa e assombro.


- Como... como isso aconteceu Sarah? - perguntou Joey perplexo.
- Bem, depois que nos separamos, comecei a vagar pro Israel. Pensei que, já que estava lá, era melhor conhecer o país antes de voltar para a Índia. Por isso, comecei a fazer caminhadas e, a contragosto, me apaixonei pelo país, pelas pessoas e... pela religião. Um dia alguém me falou de uma maravilhosa escola feminina, e aqui estou!


- Sarah, pensei tanto em você todos esses anos...
- Bem, acho que nossas almas estão em sintonia agora - disse ela baixinho, quando se voltou para ele com um sorriso acolhedor.



...

The end

1.6.11

52: Não acredito em pecado

“Toda caminhada começa com um simples passo”.
Buda



Olá!
Desculpe se sou repetitiva, mas conforme comentei anteriormente, gosto de estudar sobre todas as filosofias e religiões. Sendo assim, acredito em muitas coisas que não estão nas principais religiões deste país. Por exemplo, creio na pluralidade das existências, afinal somos energia e energia não morre nunca, apenas se transforma. Porém, em respeito à memória dos meus antepassados, também frequento a religião de origem da minha família, a Católica. Hoje fui novamente na novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.



Tenho participado com uma certa frequência, nas quartas-feiras e muitos desejos tem se concretizado. Aliás muitos não, TODOS. Mas confesso que tive que alterar mentalmente uma parte da novena, para que ela fizesse sentido para mim e para que eu saísse de lá me sentindo ainda mais próxima do "sagrado". 


 "Oração é quando você fala com Deus; meditação é quando você escuta Deus."
(Diana Robinson)

Como o próprio nome sugere: religião do latim "religione", possivelmente se prende ao verbo "religare", ação de ligar, ou seja, é um meio para nos reconectarmos à Deus. Vejo pessoas chegando na igreja ajoelhadas, outras fazendo jejum, algumas chorando e implorando perdão. Acho que Deus quer nosso bem, não nosso sacrifício, mas compreendo que para estas pessoas talvez faça sentido agir assim.


"Eu segurei muitas coisas em minhas mãos, e eu perdi tudo; mas tudo que que eu coloquei nas mãos de Deus eu ainda possuo."
(Martin Luther King)


Gostaria de conversar com os padres, mas não tive coragem. Por exemplo, há uma parte da novena que diz para repetirmos algo assim: "Eu, que sou o mais miserável de todos, pecador..."  Acho este pensamento muito destrutivo. Pode parecer que há humildade, mas se achar um miserável no mínimo é não reconhecer as dádivas que já temos. Também não creio em pecado, pois gera autopunição e a pessoa atrai fatos indesejáveis na sua vida, como doença, pobreza, acidentes, etc. 


"Minhas imperfeições e fracassos são como uma bênção de Deus, assim como meus sucessos e meus talentos, e eu coloco ambos a seus pés." 

(Mahatma Gandhi)


Acredito que Cristo veio para eliminar a ideia de pecado, dor, sofrimento, inferno... Já passei tanto tempo vendo meus defeitos, cansei, mesmo pequenos, me faziam sofrer. Estou começando a me perceber como verdadeira Filha de Deus em evolução, assim como todos nós, afinal, Deus é meu amigo! É o Deus do amor e não o Deus impiedoso do velho testamento, a quem eu tanto temi em minha infância e adolescência. Para compreender melhor minhas ideias, favor ver a publicação do dia 9: Minha nova visão de Deus.



Mas... Ir nesta igreja linda me faz bem porque creio em Cristo como um dos grandes líderes deste planeta e acho que ele não nasceu numa família qualquer, creio que sua mãe teve uma forte influência em tudo, por isso a vejo como uma líder espiritual muito forte. Sinto a presença dela e de um modo particular, nós nos entendemos.


“Maria é digna de suprema honra na maior medida”


(Lutero)


Sinto uma forte presença de anjos e seres evoluídos lá, além de Maria (Nossa Senhora) e Cristo. Consigo perceber até mesmo um "olhar" de compreensão deles para comigo até mesmo quando eu altero a Ave Maria. O mesmo não ocorre com as pessoas presentes, percebo os olhares desconfiados das pessoas próximas para mim. Por exemplo, quando todos dizem: "Ave Maria... rogai por nós pecadores..." Eu digo: "rogai por nós Filhos de Deus...



Para quem acredita:
“As orações de Maria junto a Deus têm mais poder junto da Majestade divina que as preces e intercessão de todos os anjos e santos do Céu e da Terra”.
(Santo Agostinho)

Pareço uma rebelde, mas é por uma boa causa. Na verdade naquele momento faço uma forte intenção e peço que ela interceda no coração de todos ali presentes para que se percebam como pessoas que estão evoluindo e que não merecem castigo, nem penitências e sim muito amor e compreensão. Peço para que o desejo de todos os presentes se realizem e que Deus, Nossa Senhora, Cristo e os anjos toquem o coração de todos para o belo e o sagrado.



Sabemos que não existem pessoas perfeitas e conforme eu já disse aqui antes, nem era esta a intenção de Deus, criar seres perfeitos sem nada a experimentar. Nossa "salvação" é a busca do melhor caminho até Ele, e para isso, passaremos por diversas situações até encontrá-Lo. Enquanto isso não devemos chamar alguns desafios de pecado, nem sofrer, muito menos sentir culpa. Precisamos perceber que isso não ajuda, só atrapalha, nos afasta dEle.


"Deus é a evidência invisível."
(Victor Hugo)

Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, então nossa origem/essência é perfeita. Porém é natural que nem sempre manifestemos a perfeição inata em nossos atos, pois para conhecermos Deus precisaremos passar por um processo de não conhecê-Lo. Repito: nossa origem é sagrada, divina e perfeita, mas para ver a luz e compreendê-la, passaremos um tempo na escuridão, para perceber o quente, experimentaremos e frio, etc. Só assim saberemos reconhecer o seu valor.


Deus quer falar com Você


E é isso...
Só sei que saí da igreja e fui direto visitar minha mãezinha e minha vozinha e tive uma noite MARAVILHOSA. Enquanto estava lá, já recebi umas repostas. Como o mundo espiritual responde rápido, não?! rsrsrsrs


"Minha preocupação não é se Deus está ao nosso lado; minha maior preocupação é estar ao lado de Deus, porque Deus é sempre certo." 

(Abraham Lincoln)


Mudando de assunto, hoje achei um power point que eu havia feito há quase uma década, fui abri-lo e reli as mensagens e gostei. Então vou colocá-las aqui. Espero que goste...


































Até amanhã...
Com carinho,
Marcia

"Toda a punição é maldade;
toda a punição em si é má."

( Jeremy Bentham ) 


...